
A Dama e o Vagabundo
Uma das maiores histórias de amor já contadas.
Tipo
Filme
Ano
1955
Duração
77 min
Status
Released
Lançamento
1955-06-22
Nota
7.1
Votos
5.600
Direção/Criação
Clyde Geronimi
Orçamento
US$ 4.000.000
Receita
US$ 36.359.037
Temporadas
-
Episódios
-
Sinopse
A história de uma cachorrinha de classe chamada Lady que se sente abandonada pelos donos quando eles têm um bebê e acaba se envolvendo com um cachorro de rua conhecido como Vagabundo. Os dois terão que lidar com uma injusta tia que, com seus gatos de estimação, chegam na casa e acabam com o sossego de Lady.
Elenco principal
Reviews
Total: 2
Filipe Manuel Neto
**O amor na sua forma mais inocente.** Esta é a história de amor improvável entre um Cocker Spaniel de uma casa rica e um cachorro rafeiro que mora na rua. Dirigido por Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske, tem um roteiro baseado num breve conto de Ward Greene. Este é um filme da época dourada da Disney, um clássico que atraiu gerações de crianças e adultos. Como muitas histórias antes e depois, o filme mostra, de uma forma divertida e leve, como o amor transcende as barreiras sociais. Para as crianças isso funciona bem mas o filme torna-se muito previsível para os adultos que costumam acompanhá-las. Este não é um defeito grave: o filme é para crianças e até mesmo os adultos se divertirão com as cenas mais divertidas e a comédia situacional que percorre a tela. As cenas românticas são profundamente comoventes, mostrando o amor no seu rosto mais bonito e inocente. O trabalho de voz é bom e tem muitos artistas experientes. Os desenhos são bons, feitos sem artifícios ou informatização, à moda antiga. As músicas também são boas mas o destaque é certamente a canção "Bella Notte", uma das mais românticas já usadas nos filmes animados até ao momento. Embora não seja um dos meus favoritos, este filme vai deliciar as crianças e dar bons momentos e lembranças aos adultos, com algumas lágrimas de nostalgia pelo meio.
Filipe Manuel Neto
**QUANDO A DISNEY SAIU DO CASTELO E VEIO VISITAR O BECO ESCURO.** _CRÍTICA QUE ESCREVI APÓS REVER O FILME._ Este filme foi feito com uma história que não nasceu num dia, foi montada aos poucos como um projecto de bricolagem caseiro. A primeira peça surgiu em 1937 quando o animador Joe Grant, dos melhores da Disney, inspirado por um incidente doméstico com a sua cadela springer spaniel, sugeriu que se fizesse um filme ou curta animada sobre um cão que se sente posto de lado após o nascimento de um bebé, e que é injustamente culpado pelas travessuras de dois gatos siameses da sogra do dono. Walt Disney não se comprometeu e ficou com a ideia enquanto desenvolvia outros projectos e resolvia os problemas financeiros do estúdio. Por volta de 1942, a ideia ressurgiu quando leu o conto “Happy Dan, the Whistling Dog”, sobre um cão vadio e a sua vida despreocupada. Sem demora, pegou no telefone e disse a Ward Greene, o autor, que «o seu cão e a minha cadela têm de ficar juntos!». Greene respondeu enviando uma reescrita do conto com o romance entre as duas personagens, cujos direitos foram logo adquiridos, e que deu azo a um livro infantil publicado em 1953, com algumas das imagens feitas por Joe Grant para o storyboard deste filme: com isso Disney tirou-o dos créditos do filme, coisa que Grant nunca perdoou. Em 1943, foi feito um brainstorming entre Disney, Grant e outros artistas e animadores. Na reunião, os cães tiveram diversos nomes e peripécias imaginadas e descartadas, mas uma coisa sempre se manteve: a história ia ser contada da perspectiva deles. No final, havia título e as personagens tinham nomes. Infelizmente, cortes de verba fizeram parar os trabalhos até 1952, quando o projecto foi retomado com orçamento de 2,5 milhões de dólares, que Roy Disney pediu para o irmão gerir com parcimónia. O storyboard final foi feito por Erdman Penner e Joe Rinaldi, aproveitando muitas das ideias já assentes. No entanto, foram eles que sugeriram a ideia de mostrar as pernas dos donos e não lhes dar outros nomes além dos apelidos carinhosos que usam entre si, e que os cães escutam. O filme mostraria como eles vêm o mundo, numa exploração dos contrastes entre um animal amorosamente criado numa casa abastada e outro, sem donos nem raça definida, criado nas ruas da cidade. Eles observaram cães verdadeiros para ter ideias, como a ideia da ratazana no final do filme. Disney até adoptou um desses cães, que salvou de ser abatido no canil e deu a base visual para o Vagabundo. A última peça chegou pela voz de Peggy Lee: ela convenceu-os a tornar a cena do canil num momento de blues, maduro, profundo e triste, e a dar aos gatos alguma malícia. A Disney empregou os melhores técnicos e criativos neste projecto, exigindo-lhes realismo total: o público ia ver cães iguais aos que tinham, mas capazes de mostrar emoções de forma reconhecível. Assim, o processo de animação decorreu sob a direcção de Hamilton Luske, Wilfred Jackson, Clyde Geronimi, e a supervisão de Les Clark, Milt Kahl, Ollie Johnston, Eric Larson, John Lounsbery, Wolfgang Reitherman e Frank Thomas. Ao último se deve a cena do esparguete, que Disney chegou a cortar, mas ele recriou com maior romantismo e humor, com as personagens a “dizerem” tudo por expressões que nós reconhecemos. Foi uma decisão sábia: tornou-se uma das mais antológicas cenas românticas do cinema, copiada por diversos casais e até parodiada! Eric Larson animou a cadela Peg, inspirando-se nos maneirismos de Peggy Lee, que lhe deu a voz; também animou Dama, a quem deu refinamento, insegurança e romantismo. Kahl ficou com o Vagabundo, dando-lhe um charme de rebelde, como James Dean ou Marlon Brando. A escolha das cores foi igualmente criteriosa: tons quentes para o lar acolhedor de Dama, tons frios e mais sombras para evocar os perigos da vida nas ruas e a tristeza do canil (comparado a uma prisão humana) e tons vibrantes e oníricos na cena dos gatos siameses. A grande inovação deste filme foi a introdução do Cinemascope, um “ecrã panorâmico” que apareceu como resposta à concorrência feroz da televisão, que só adoptou igual formato na década de 90. O rectângulo era já usado nos filmes da 20th Century Fox e dava mais espaço aos animadores de fundo, que tinham um “cenário” maior a fazer e podiam inserir mais detalhes: tapetes, pernas de cadeiras, latas de lixo, etc. Com o trabalho, os animadores fizeram um esforço suplementar de realismo histórico. Este não é o primeiro filme-longa animado da Disney, mas é um dos primeiros onde conseguimos situar visualmente a trama no espaço e no tempo (numa cidade da costa Leste dos EUA por volta de 1905). O formato também permitia mais personagens num mesmo fotograma e menos cortes entre personagens, com cenas mais longas e fluídas. Os desenhos foram feitos ao nível do chão, sem mostrar muito dos telhados e tectos, enfatizando a perspectiva do cão. Para isso, chegaram a construir modelos em papelão das salas e casas, deitando-se no chão diante deles para verem o que o cão vê! Por isso, vemos ocasionalmente os rostos e tronco dos seres humanos, e às vezes as suas sombras. O trabalho do som também não foi ignorado: ouvimos com muita nitidez os passos dos humanos, o roçar das saias e as vozes humanas parecem vir de longe, enfatizando a pequenez do cão junto do seu dono; no canil, a prisão canina, ouvimos uivos e gemidos lamentosos, o bater das grades, é um ambiente sonoro de melancolia e triste resignação que contrasta com o caloroso tilintar da coleira de Dama, que nos recorda (e a ela mesma) o seu “estatuto social” quase aristocrático no mundo canino. É o equivalente a uma mulher usar um colar de diamantes, e a perda desse colar canino mostra-nos o quanto ela se distanciou do seu mundo confortável. Para dar voz às personagens o estúdio chamou profissionais, mas é Peggy Lee quem se destaca pela positiva: além de uma qualidade vocal impressionante, tanto a cantar quanto a falar, esta famosa cantora de jazz deu a voz a várias personagens e dedicou-se à escrita e interpretação das canções, quase todas escritas por ela e musicadas por Sonny Burke. Se a canção “Bella Notte”, na voz de George Givot, dá a tónica ao momento mais ternurento do filme, Lee garantiu o contraponto tonal com “He’s a Tramp”, que se tornou um clássico do jazz, e com um momento musical brilhante onde dois gatos cantam uma melodia oriental maliciosa e bamboleante: para isso, ela teve de cantar duas vezes a música, em duas gravações e dois tons de voz, dando a ilusão de que são duas personagens a cantar em coro. Mais tarde, ela ganharia uma fortuna com o seu trabalho, posto que o contracto não previa o VHS/DVD, e ela pôde reivindicar o pagamento de direitos autorais adicionais. Quando o filme saiu foi retalhado pela crítica: “os animais são humanos demais”, “o filme é esticado, não era preciso algo tão largo!”. Os «wearing blinders» de serviço caíram a matar, e o futuro provou que eles estavam genericamente errados. O futuro diria que o formato panorâmico, em Cinemascope ou noutro parecido, era o futuro a chegar, e que a maneira como os animais expressam emoções sem deixarem de ser animais funciona na perfeição. De resto, a apreciação do público foi o primeiro sinal do erro deles! O filme, com todos os atrasos e despesas adicionais, como a necessidade de conversão para formato académico devido a poucos cinemas terem já as máquinas para o Cinemascope, foi um êxito de bilheteira para a época e ainda continua a render, como sabemos, graças ao formato físico, ao merchandising e aos elementos do filme em parques temáticos! Este é o filme onde a Disney, o estúdio dos reis e cavaleiros de armadura, sai um pouco da beleza doirada dos palácios e castelos das princesas casadoiras para vir ao mundo real, às casas suburbanas e ao universo rebelde das prisões e becos da América, vindo ao encontro do homem comum para ouvir o choro do blues e as queixas da malta da prisão. É um filme elegante, charmoso, mas que trata de assuntos sérios e emoções concretas, e é um dos poucos clássicos da Disney que aborda o amor com mais realismo, sem idealizações parvas, pondo as personagens perante dilemas credíveis, como a desigualdade social e o estigma de ser visto como um marginal! Claro, o filme não é perfeito. Um dos problemas mais evidentes é o modo como Dama se deixa seduzir com a ingenuidade de uma adolescente. É difícil imaginar que a personagem, ainda que isolada do mundo, dentro da sua bolha de conforto, pudesse ser tão fácil de levar na conversa. Outro problema é o ritmo algo estranho do último terço, com o filme a correr para atar pontas soltas e dar resolução à trama. Isso não combina com o ritmo cadenciado de tudo o que vimos antes, onde a trama levou o seu tempo a introduzir personagens e criar os conflitos e interacções que fomos acompanhando. No entanto, a maioria das pessoas, e refiro-me ao público dos nossos dias, parece mais incomodada com a cena dos gatos siameses! Tudo bem, está cheia de estereótipos culturais relativos à cultura e etnia asiáticas, e eu reconheço que isso seria inaceitável num filme recente. No entanto, a cena funciona bem e é engraçada, e essas referências, vale a pena lembrar, eram aceitáveis à luz da maneira de pensar das pessoas da década de 50. Este filme até pode ser atemporal, mas continua a ser fruto do tempo em que foi feito, e não devíamos valorizar isto de maneira excessiva, muito menos “cancelar” o filme ou obrigar as futuras versões a removerem a cena em causa. Isso é a pior coisa que pode ser feita: além de ser um branqueamento do passado, que afasta do nosso olhar o que desagrada e finge que está tudo bem, é um desrespeito à obra e aos criadores.
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