
Tipo
Filme
Ano
1963
Duração
186 min
Status
Released
Lançamento
1963-03-27
Nota
7.7
Votos
935
Direção/Criação
Luchino Visconti
Orçamento
-
Receita
-
Temporadas
-
Episódios
-
Sinopse
Durante o conturbado processo de unificação italiana na Sicília, o príncipe Don Fabrizio passa a simpatizar com os ideais socialistas, mas não gosta da ideia de perder seu prestígio e privilégios.
Elenco principal
Reviews
Total: 1
Filipe Manuel Neto
**Uma reflexão sobre as mudanças sociopolíticas e a passagem das gerações num filme que é tão bom quanto uma ida a uma ópera italiana.** Este é um daqueles filmes que me diz muito, na medida em que por vezes me revejo muito na personagem principal. Ambientado, aproximadamente, entre 1859 e 1862, o filme dá-nos uma visão intimista e pessoal da unificação italiana, vista a partir da perspectiva de um aristocrata siciliano que sente estar a ver o mundo em que nasceu desaparecer muito rapidamente. O maior problema dele não é o desaparecimento do seu país, o Reino das Duas Sicílias, mas a ascensão rápida da burguesia capitalista, que tinha forte ascendente junto do rei piemontês Vitório Emanuel I, e as ameaças que esta nova sociedade poderia trazer para as pessoas da sua classe social, cada vez mais decadente e empobrecida. Sendo, também eu, um aristocrata (embora não da Itália), também eu me sinto por vezes perdido no mundo que nos rodeia, onde a fascinação pela tecnologia, pelas possibilidades do futuro, parece fazer esquecer a importância de manter vivas a memória histórica, as tradições e as marcas próprias da identidade dos povos e das nações, valores que são caros ao verdadeiro aristocrata, por mais moderna e ordinária que seja a sua vida particular. No presente, a generalidade dos aristocratas europeus perdeu as terras de família e as fortunas dos seus bisavós, vivendo anonimamente do rendimento do seu trabalho e reservando ao seio familiar as memórias e a herança cultural que carregam. Há notórias excepções, como nos países onde ainda há monarquias reinantes, mas apesar de tudo sinto, também eu, um certo desgosto em ver a maneira como o mundo actual despreza os valores e as memórias de sempre, vendendo-se ao deslumbre do imediatismo, da practicidade e das tão ilusórias noções de liberdade e de igualdade. “Tudo tem de mudar para que tudo permaneça como está”. A frase dita por Tancredi ao seu tio é a chave para compreender a maneira como este se comportará ao longo de todo o filme. Consciente de que pertence ao “passado” e o seu papel no novo mundo democrata e moderno é questionável, Fabrizio prefere promover a posição do sobrinho, que depressa ascende pela sociedade do novo reino italiano, contraindo noivado com a filha e herdeira de um riquíssimo e ambiciosíssimo comerciante, de origens humildes. Curiosamente, até se preocupa mais com isso do que em assegurar a situação dos seus sete filhos, posto que é garantido que a sua vasta fortuna e propriedades serão divididas igualmente, garantindo o futuro de cada um deles, mas sem lhes dar papel relevante no mundo novo que chega. É um mundo que, no entanto, não ignora nem esquece a importância dos velhos senhores: Fabrizio é alvo de grandes cortesias e actos de respeito, é convidado para cargos de relevo e até alvo de um avanço amoroso da jovem ambiciosa que destinou ao sobrinho, mas tudo é recusado educadamente por um homem ciente da sua finitude e da passagem do tempo. Como tudo acaba? É melhor verem o filme. Luchino Visconti, ele mesmo um aristocrata de sangue, era a pessoa mais indicada para compreender perfeitamente o texto de Giuseppe Tomasi, príncipe de Lampedusa. Como habitual nas obras do cineasta, oferece-nos uma cinematografia vívida e fascinante, e uma grande sensação de teatralidade e dramatismo operático. Ver este filme é quase como ir a uma ópera de Verdi, encenada com todos os requintes. Os cenários, figurinos e adereços são historicamente precisos e transportam-nos imediatamente para a época em que tudo se passa. E apesar de ser um filme bastante longo (a versão do director tem cerca de três horas e a versão lançada na época para os cinemas era ainda maior), não sentimos passar o tempo, não nos sentimos aborrecidos, cada minuto é necessário para a reflexão que nos querem transmitir. Burt Lancaster oferece-nos aqui um dos seus primeiros papeis de maturidade. O actor, que passou por várias eras do cinema do século XX, garantiu à sua personagem toda a profundidade emocional e psicológica do homem maduro, que vê o seu tempo terminar e sente a necessidade de passar o testemunho para as novas gerações. Alain Delon, que também dispensa apresentações, é ideal como galã romântico, idealista e ambicioso, e deixa-nos um dos melhores papeis da sua longa e frutuosa carreira. Apesar da sua beleza voluptuosa e profundamente carnal, a bela Claudia Cardinale tem pouco espaço para usar da sua beleza física num papel que lhe exige mais personalidade e impetuosidade, o que ela de facto tem de sobra! De entre o elenco vale ainda a pena destacar os contributos de Paolo Stoppa, Romolo Valli e Rina Morelli, que nos oferecem interpretações credíveis e cheias de empenho e qualidade.
Fotos do título
Clique para abrir e expandir cada foto.
