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Filipe Manuel Neto
**Um filme que, pelo ambiente dominante e pela maçadora lentidão, me lembrou um velório.** A minha opinião acerca do cinema português nunca foi a melhor. Sempre considerei que, não obstante a beleza dos lugares do nosso país e a qualidade dos actores e pessoal técnico, não há directores capazes de fazer algo que seja, ao mesmo tempo, minimamente palatável ao público geral e tecnicamente bem feito. Ou os directores portugueses optam por um academismo vão e irritante, e fazem filmes que nunca saem do circuito dos festivais e acabam esquecidos, ou se rendem à máquina de fazer dinheiro e lançam comédias idiotas com piadas de baixo nível. Este filme, considerado por muitos como um dos melhores feitos por Manoel de Oliveira, é um bom exemplo do filme académico, maçante e ininteligível que eu mencionei acima. Acredito que o filme tenha feito as delícias dos festivais, e não penso que seja desprezível o facto de o filme ter arrecadado prémios e algumas boas críticas em Tóquio e em São Paulo… mas o facto é que, passados quase trinta anos, é um filme esquecido, até pelos nerds. Para o filme, Oliveira pediu um roteiro original à escritora Agustina Bessa-Luís. Sem qualquer tipo de demérito, a escritora deu-lhe uma história que, no fundo, é uma adaptação de “Madame Bovary”, que passa pelos cenários do Douro e se inspira neles para obter certo lirismo literário. Será seguramente um livro interessante, mas não é uma boa história para o cinema, e Oliveira ignorou isso. Ver o filme e ler um livro é a mesma coisa, em parte graças a um narrador que não se cala por um minuto e que parece estar a ler em voz alta. A história segue Ema, a personagem principal, desde a juventude até à morte. Ao contrário do que muitos defendem, penso que a personagem não é uma adolescente inocente, apesar da sua pouca idade: ela sabe que é muito bonita, sabe o efeito que isso tem nos homens e procura-o, diverte-se como uma Lolita. O resto do filme é uma anacronia, com as personagens a agirem como se vivessem no século XIX e não na década de 80 do século XX: o casamento de Ema com Carlos de Paiva, dono da Quinta de Vale Abraão, é combinado pelo pai; a vida social do casal, formalíssima, quase emula a dos burgueses oitocentistas de Flaubert; o hábito de dormirem em camas separadas é um contra-senso, e a explicação de o médico sair de madrugada para ver os doentes simplesmente não tem cabimento. Oliveira e Bessa-Luís tentaram recriar uma vivência burguesa oitocentista nos dias actuais, mas o retracto é anacrónico e inacreditável. O filme conta com vários actores razoavelmente conhecidos, alguns deles com um palmarés a considerar, no teatro, cinema e televisão. Todavia, nenhum deles se sai bem aqui. Leonor Silveira tentou tudo para ser elegante e sedutora, e a forma como a actriz se movimenta e observa é, de facto, hipnótica… mas também orgulhosa e vaidosa. A personagem revela-se intragável na sua maçante e cansativa monotonia e nos modos afectados, arrogantes. Cécile Sanz de Alba, a jovem actriz que interpretou Ema na adolescência, é magnifica, linda, mas vazia de conteúdo, e só faz o que tem de fazer. Luís Miguel Cintra é um bom actor, mas aqui deu vida a um homem vazio, um “co..o manso” inerte e amorfo, sem emoção alguma. Ruy de Carvalho é uma sombra de si mesmo. Diogo Dória e José Pinto pouco ou nada podem acrescentar. Tecnicamente, o filme tem vários pontos de mérito, eu reconheço isso. A constante quebra da chamada “quarta parede”, com interpelações e olhares directamente para a câmara, bem como o recurso a um narrador, levam o público a fazer parte do filme como uma personagem muda, observadora. O filme aproveita bem a paisagem do Vale do Douro e as quintas e casas senhoriais onde foi filmado, ainda que certos detalhes sejam inconcebíveis (o recurso à luz das velas, por exemplo). A cinematografia é, sem dúvida, um ponto marcante, com o recurso a espelhos, a sombras e a efeitos de luz diversos que Oliveira trabalhou incansavelmente. Admiro e respeito isso, mas não chega para tornar um filme bom, não compensa o ambiente monótono ou o ritmo excessivamente lento de um filme com tiques de velório e banda sonora a condizer.
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