
Os Infiltrados
Policiais ou criminosos. Quando você encara uma arma carregada, qual a diferença?
Tipo
Filme
Ano
2006
Duração
151 min
Status
Released
Lançamento
2006-10-04
Nota
8.2
Votos
16.025
Direção/Criação
Martin Scorsese
Orçamento
US$ 90.000.000
Receita
US$ 291.465.000
Temporadas
-
Episódios
-
Sinopse
Billy Costigan, um jovem policial, recebe a missão de se infiltrar na máfia, mais especificamente no grupo comandado por Frank Costello. Billy conquista sua confiança ao mesmo tempo em que Colin Sullivan, um criminoso que atuou na polícia como informante de Costello, também ascende dentro da corporação. Tanto Billy quanto Colin se sentem aflitos devido à vida dupla que levam. Mas quando a máfia e a polícia descobrem que há um espião entre eles, a vida de ambos passa a correr perigo.
Elenco principal
Reviews
Total: 2
Filipe Manuel Neto
**Outro grande filme de gangsters com a assinatura de Scorcese.** Este filme gira em torno da luta entre a polícia e a máfia irlandesa americana. Dirigido por Martin Scorsese, tem um roteiro de William Monahan e um elenco liderado por Leonardo DiCaprio, Matt Damon e Jack Nicholson. O filme foi nomeado para cinco prémios da Academia, ganhando quatro deles (Melhor Edição, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Director e Melhor Filme). Este filme é, sem dúvida, um dos mais interessantes que vi sobre a máfia e o crime organizado. O roteiro é excelente, com muitas reviravoltas e boas cenas de acção, mantendo o público atento até ao fim. O desempenho dos principais actores é interessante, particularmente Nicholson, que consegue tornar a sua personagem verdadeiramente intimidante e imprevisível. As personagens de DiCaprio e Damon são igualmente ricas, donas de uma psicologia complexa, vários momentos de conflito e diálogos bem pensados. Até algumas personagens secundárias são notáveis e complexas. A fotografia é excelente e os efeitos sonoros, assim como a banda sonora de Howard Shore, está cheia de temas e momentos de forte sabor irlandês. A direcção de Scorcese pareceu-me digna de poucas críticas, num tipo de filme recorrente no trabalho deste cineasta, responsável por "Tudo Bons Rapazes". Este é um óptimo filme de acção, cheio de entretenimento e feito para segurar e surpreender o público.
Filipe Manuel Neto
**A ESQUIZOFRENIA URBANA DE BOSTON NUMA SINFONIA DE TRAIÇÕES E DUPLICIDADE.** _CRÍTICA QUE FIZ APÓS REVER O FILME._ Há filmes norte-americanos que se baseiam em filmes estrangeiros. “The Ring” foi um desses casos, mas “The Departed” é semelhante por ser um remake de “Infernal Affairs”, drama policial ambientado no cenário do combate às tríades mafiosas de Hong Kong. Esse filme fez enorme sucesso no mercado asiático graças à acção seca e aos temas psicológicos inseridos. Quem se apercebeu do potencial para um remake foi Brad Pitt, que decidiu fazê-lo com a sua produtora, a Plan B, e convenceu os executivos da Warner Bros. a entrar com outras empresas na guerra de licitações pelos direitos, adquirindo-os por 1,75 milhões de dólares em Janeiro de 2003. Encarregado do argumento, William Monahan decidiu situar a história na sua terra-natal, Boston, inspirando-se no caso real de Whitey Bulger, o «rei do crime» de South Boston. Bulger, secretamente, mantinha contacto com John Connoly, um polícia que vive no mesmo bairro, trocando informações com ele: o mafioso dava-lhe a informação para prender rivais de outros grupos criminosos e recebia em troca protecção e avisos prudentes. Ambos lucraram com a parceria: Connoly foi ascendendo na carreira à custa de detenções e Bulger dominava o crime organizado sem opositores, beneficiando ainda do apoio do irmão, o senador Billy Bulger. Monahan usou as semelhanças com o argumento asiático para desenvolver uma simetria dual com a dupla infiltração do polícia que se finge mafioso, e do mafioso que finge ser polícia. Uns e outros sabem que há infiltrados, mas não sabem quem é quem e Monahan explora a teia de lealdades cruzadas, desconfianças e dualidades, levando o público para o meio urbano «Southie» através do uso inteligente do vernáculo e das gírias locais. O roteiro por ele escrito é um jogo de nervos de alta tensão onde se revela a força de ser «um dos nossos», força que faz pessoas cumpridoras da lei censurarem as autoridades, encaradas como corruptoras cínicas que aproveitam a traição ocasional para caçar alguns criminosos enquanto ignora os que lhe possam vir a ser úteis. Martin Scorsese foi convidado para a direcção. Ele tinha terminado “Gangues de Nova Iorque” e “O Aviador” e sentia-se cansado de filmes épicos ou biográficos. Queria voltar às próprias origens, aos filmes violentos de tramas criminais. Ele não sabia que o projecto era um remake, mas apesar disso aceitou, interessado pela trama e pela ideia de personagens que vivem vidas que odeiam até se tornarem tudo o que odeiam. O estilo de escrita de Monahan, que lembrava coisas que ele próprio escrevia na década de 70, dava-lhe o que precisava, ele só tinha de impor o seu ritmo e dinâmica a cada cena. Foi ele que trouxe Leonardo Di Caprio e Jack Nicholson para o projecto, e que deu aprovação à entrada de Matt Damon, um nativo de Boston, para substituir Brad Pitt, que se sentiu velho para o papel em que havia pensado. Apesar de a acção se ambientar em Boston, a esmagadora maioria do trabalho decorreu em Nova Iorque por questões de orçamento: os benefícios fiscais do Estado de Nova Iorque eram apelativos. Isso forçou a designer de produção, Kristi Zea, a encontrar ruas similares a South Boston, o que acabou por acontecer em Brooklyn e Queens. Algumas cenas foram, porém, captadas em Boston e serviram, essencialmente, para incluir marcos reconhecíveis, como a cúpula do Capitólio de Massachusetts. A cena final também é filmada na cidade, tendo sido feita uma estrutura que permitia à câmara rodar 360 graus no seu próprio eixo. Os figurinos de Sandy Powell dividem o filme a meio: Billy Costigan exala tensão dramática com roupas amassadas, práticas, sem refinamentos, e com a sua pesada arma SIG-Sauer P226; Sullivan usa roupas caras e bem cuidadas, um carro oficial Ford Crown Victoria e uma Glock 19, arma-padrão da Polícia Estadual. Costello veste-se com roupas de couro, os óculos escuros e usa carros luxuosos: não tem de conduzir nem de matar, embora ande armado. Para garantir que as técnicas policiais e mecanismos de escuta fossem credíveis, a produção aconselhou-se com Tom Duffy, ex-polícia que trabalhou 30 anos em Boston. Para filmar, Scorsese apoiou-se no cinegrafista Michael Ballhaus, seu parceiro regular. Eles usaram câmaras Arriflex 435 e Panaflex Platinum: a primeira foi usada em exteriores e cenas de acção, a segunda, silenciosa, foi o recurso para os diálogos. Foram armadas com lentes anamórficas e lentes zoom, e vários tipos de película 35 mm da Kodak, como o Kodak Vision2 500T 5218, que acentua as sombras em cenas com pouca luz. Eles conseguiram imprimir uma atenção nervosa à cinematografia que expressa visualmente a pressão e ansiedade das personagens e o medo de ser apanhado a mentir. Scorsese deu igualmente muita atenção ao som diegético e à sobreposição de diálogos: os sons da cidade servem, assim, de pano de fundo a discussões nervosas, onde as personagens se interrompem e insultam no jargão de South Boston. Os efeitos visuais são eminentemente práticos: por exemplo, sacos de sangue falso com pequenos explosivos, para as mortes e tiroteios violentos e cheios de sangue. Muitas vezes, essas cenas são antecedidas pela aparição breve de X (normalmente integrados no cenário, como fita adesiva ou vigas metálicas), como se as pessoas destinadas a morrer fossem «marcadas» pelo destino. Como habitualmente, Scorsese restringiu o CGI ao mínimo, isto é, a tudo o que não podia fazer de outra forma. O filme não estaria completo sem a banda sonora de Howard Shore. As peças compostas por ele para este filme estão longe de ser o melhor da sua carreira, mas são razoavelmente funcionais e convivem razoavelmente com canções seleccionadas por Scorsese, como “Gimme Shelter” dos Rolling Stones (de que ele é fã) ou “I’m Shipping Up to Boston” dos Dropkick Murphy’s. Esta mistura de rock e de violência visual dá ao filme os contornos de uma viagem frenética pelos infernos. A editora, Thelma Schoonmaker, privilegiou esse ritmo alucinado durante os trabalhos de montagem, chegando a permitir, alguns erros de continuidade por forma a não perder o ritmo. Eu confesso que não notei a maioria deles, é realmente um problema menor. Após ter visto o filme, eu sinto-me satisfeito com a generalidade do que vi. Para actores impulsivos e com capacidade de improviso, isto é o palco perfeito, e foi isso que Jack Nicholson deu a este filme: ele transforma um mafioso num niilista tresloucado e imprevisível, chegando a sacar de uma arma verdadeira (descarregada, mas ninguém sabia!) na cena do bar, à frente de Di Caprio, totalmente embasbacado. O actor é fenomenal, e o seu improviso constante transforma a sua actuação num dos seus melhores trabalhos de maturidade. Houve muitos críticos que acharam demasiado, mas é precisamente a energia caótica e bruta de Nicholson que dá vida ao filme. Leonardo Di Caprio também está muito bem, oferecendo-nos uma «tour de force» dramática digna de um actor que quer crescer e assumir-se como uma opção versátil e confiável. Ele não quer ser o menino bonito do “Titanic”, quer ser tudo o que puder: cada cena é um desafio dizendo «façam-me propostas ousadas, ponham o meu talento à prova». Mark Wahlberg também nos dá tudo de si, num trabalho que foi nomeado ao Óscar com bastante mérito: ele é pura energia bruta quando está em cena. Matt Damon é o que está mais contido e discreto, mas porque o enredo o exige: ele tem de parecer impecável, por mais que seja tão podre quanto todos os outros. Bom trabalho! O público adorou o filme, foi um dos grandes sucessos do ano e arrecadou uma fortuna. A crítica rendeu-se a Scorsese, aplaudindo o seu regresso às origens, que lhe valeu o Óscar de Melhor Realizador que já lhe andava a fugir há várias décadas, desde “Goodfellas”. Recebeu-o visivelmente emocionado, das mãos de três colegas e amigos: Spielberg, Lucas e Coppola. Que quarteto de sonho! Curiosamente, o verdadeiro Whitey Bulger, a quem este filme tirou inspiração, só foi preso em 2011, acabando por morrer assassinado atrás das grades, em provável consequência da colaboração com os federais. Afinal, ainda há honra entre ladrões. Para mim, o filme funciona graças à escrita inspirada de Monahan e à mão do director: o argumento é cru e visceral, não nos dando momentos de felicidade ou de paz, nem nenhuma personagem boa. Aqui todos têm manchas, não há nenhum Harvey Dent embora todos tenham duas caras. Scorsese pegou num bom filme oriental e melhorou-o, transformando-o numa crítica dinâmica e impactante à hipocrisia policial e ao mundo criminal numa cidade que, à tona, se mantém catolicamente pacífica e devota. Se Hitchcock mantinha cada decisão e cada take sob controlo pessoal, Scorsese fez o oposto: reúne talentos, explica-lhes o que quer e dá o mínimo de direcção, confiando no talento individual e na capacidade improviso de cada um. A preocupação do director é garantir que eles partilham da sua visão para o filme. Os erros mais imperdoáveis são a cena final, com o rato, que é demasiado óbvia em comparação com a elegância brutal do que foi feito antes, e a introdução da personagem vivida por Vera Farmiga, a que falta o conteúdo psicológico das demais. No entanto, são questões acessórias: o filme é bom e funciona especialmente bem dentro da «trilogia irlandesa» de Scorsese: assistimos às origens das máfias irlandesas em “Gangues de Nova Iorque”, vemos como atingem o auge aqui e, depois, vemos o percurso de um assassino irlando-americano em “O Irlandês”. Estes três filmes completam-se.
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