
Cruzada
Não tenha medo diante de seus inimigos. Proteja os indefesos e não faça nada errado.
Tipo
Filme
Ano
2005
Duração
144 min
Status
Released
Lançamento
2005-05-03
Nota
7.0
Votos
4.850
Direção/Criação
Ridley Scott
Orçamento
US$ 130.000.000
Receita
US$ 218.366.336
Temporadas
-
Episódios
-
Sinopse
Ainda em luto pela repentina morte de sua esposa, o ferreiro Balian junta-se ao seu distante pai, Baron Godfrey, nas cruzadas a caminho de Jerusalém. Após uma jornada muito difícil até à cidade santa, o jovem valente entra no séquito do rei leproso Balduíno IV, que deseja lutar contra os muçulmanos para seu próprio ganho político e pessoal.
Elenco principal
Reviews
Total: 3
Filipe Manuel Neto
**Um filme de qualidade, que cria uma história romanceada em cima de factos e personagens históricas reais.** Este filme, baseado em personagens e lugares históricos reais, aborda o cerco e a reconquista muçulmana da cidade de Jerusalém em 1187, após a derrota dos cruzados na Batalha de Hattin, contra as forças de Saladino. Dirigido por Ridley Scott, conta com Orlando Bloom, Eva Green, Liam Neeson e Jeremy Irons nos principais papéis. O filme aborda as cruzadas sob um novo ponto de vista. Vemos um momento preciso onde Jerusalém, capturada em 1099, está prestes a ser perdida novamente. Muitas das personagens são baseadas, de modo muito ligeiro, em personagens históricas reais, da mesma forma que o roteiro e a trama usam factos históricos, muito embora não seja um filme historicamente preciso. E isto é algo que eu devo frisar bem: o filme não retracta os factos históricos, aproveita os factos históricos e constrói uma história ficcional em cima deles. É diferente. Mas há, sim, algum rigor histórico, essencialmente limitado aos figurinos, armas, técnicas de cerco e cenários. Tais elementos foram concebidos com algum cuidado, além de que são magníficos do ponto de vista estético. Claro que Hollywood tem uma imaginação fértil, e isso pode ver-se nalguns estratagemas dos sitiados para destruírem todas as máquinas de cerco dos muçulmanos. Abordando agora a questão do roteiro e da trama em si, eu considerei-a bastante envolvente e bem construída. As cenas de acção são várias e agradam bastante ao público. As tramas românticas também não ficam mal, e nem soam propriamente a falso. A personagem central, Balian, é digna da simpatia do público e isso irá ajudar-nos a ir acompanhando o filme com atenção. Os actores cumpriram o seu papel de maneira satisfatória. Orlando Bloom é igual a si mesmo, faz o que deve fazer com bons resultados mas não surpreende. Eva Green fez certos esforços para ter um aspecto mais oriental, mas é no final que nos dá uma melhor interpretação da sua personagem, em meio à dor e ao sofrimento de uma mãe. Igualmente interessante foi a prestação de Edward Norton (que nunca mostra o rosto no filme), que interpretou o rei Balduíno IV de Jerusalém. Trata-se de um rei doente, leproso, mas prudente, que é autor de alguns dos diálogos mais inteligentes de todo o filme. A banda sonora, escrita por Harry Gregson-Williams, é boa e combina harmoniosamente a inspiração medieval e muçulmana com a música cinematográfica de cunho mais tradicional.
Rosana Botafogo
**English** An epic historical drama, a fictional portrayal of the events leading up to the Third Crusade, focusing on Balian of Ibelin, who fights to defend the Crusader Kingdom of Jerusalem from the Ayyubid sultan Saladin, and mistakenly or intentionally portraying Sibylla as being in love with Balian instead of Guy, an injustice, considering that Sibylla played a fundamental role at the time, who with ingenuity and discernment acted strongly in the reign... Distorted and misogynistic story, great effects and long **Portuguese** Um drama histórico épico, retrato ficcional dos eventos que levaram à Terceira Cruzada, focando em Balian de Ibelin, que luta para defender o Reino Cruzado de Jerusalém do sultão aiúbida Saladino, e erroneamente ou intencionalmente retratando Sibylla como estando apaixonada por Balian em vez de Guy, uma injustiça, considerando que Sibylla teve um papel fundamental a época, que com engenhosidade e discernimento atuou fortemente no reinado… História distorcida e misógina, ótimos efeitos e longo.
Filipe Manuel Neto
**REINO DA CONVENIÊNCIA: COMO RIDLEY SCOTT CRIOU UMA ANACRONIA REALISTA.** CRÍTICA FEITA APÓS TER VISTO A VERSÃO DO DIRECTOR. Ridley Scott não é um director que gosto de ver fazer filmes com fundo histórico. Ele oferece espectáculo e drama, mas sacrifica a autenticidade e atropela factos e figuras com a desculpa da liberdade criativa. Embalado pelo êxito de “Gladiador”, “Hannibal” e “Black Hawk Down”, ele utilizou a confiança da 20th Century Fox e o capital da sua produtora pessoal para fazer este filme. O tema tornara-se actual com os atentados de 2001 e o início da “guerra contra o terror”, e permitia explorar os temas do fanatismo e do ódio religioso, defendendo que a convivência de pessoas de credos diferentes é possível. Inicialmente, pensou em usar um castelo cruzado no Líbano e fazer uma trama simples, mas o argumentista William Monahan propôs-lhe uma trama profunda, sem estereótipos, focada na perda de Jerusalém em 1187. A Fox aceitou e empatou 130 milhões de dólares. Monahan desenvolveu o argumento entre 2002 e 2005, estudando as crónicas de Guilherme de Tiro e Imad al-Din de Esfahân, e a bibliografia publicada, em particular “A History of the Crusades” de Steven Runciman. Este estudo com mais de 50 anos foi pioneiro ao ver as cruzadas como uma continuação das invasões bárbaras e ainda é influente, mas falha por não ter acesso à obra dos autores árabes e por simplificar os cruzados como guerreiros bárbaros. Numa fase mais avançada, Monahan procurou especialistas em heráldica, armamento e guerra medieval, como Hamid Dabashi, professor de Estudos Iranianos na Universidade Columbia. Eu espero que Monahan tenha consultado “The Lepper King and His Heirs”, de Bernard Hamilton, publicada em 2000 pela Cambrige University Press, de modo a ter um contraponto à obra clássica de Runciman. E para mostrar que o tema continua a ocupar os historiadores, os mais curiosos poderão gostar de ler o artigo “The Islamic View and the Christian View of the Crusades”, publicado em 2008 por Paul Chevedden no nº 93 da “History”. Para antever as cenas, Scott usou storyboards detalhados. As filmagens foram essencialmente em Ouarzazate, Marrocos, mas também visitaram o Sul de Espanha. Com o apoio do governo marroquino, fizeram um enorme cenário que incluía uma muralha de 400 metros por 10 de altura, conseguindo que 1500 soldados marroquinos se vestissem e armassem a rigor para representar o exército de Saladino (cortesia do Rei de Marrocos, que deu todo o apoio a Scott). Centenas de artesãos fizeram manualmente as peças de armamento e adereços, com uma perícia e look credível difíceis de igualar, incluindo os trabucos e torres de cerco, funcionais e feitos à escala. Para filmar, Scott quis que as cenas representando França tivessem uma cinematografia diferente do resto do filme, com uma paleta mais azulada e sombria que destoasse das cores vibrantes e quentes do Levante. Para os efeitos, usaram eminentemente truques práticos, reservando o CGI para detalhes, panorâmicas e extensões de cenários, e os sons recorrem a colecção de sons metálicos pesados para o armamento. A banda sonora, de Harry Gregson-Williams, é excelente e atmosférica, fundindo sonoridades orientais e ocidentais. Scott inseriu, porém, duas faixas de outros filmes (“13th Warrior” e “Hannibal”), facilmente reconhecíveis. O ponto forte do filme é a reconstituição atmosférica do período e do local, a sensação agradável das cenas de combate bem encenadas. O ataque a Jerusalém pode ser considerado dos melhores cercos medievais recriados em filme. No entanto, o elenco também merece boa nota. Apesar de não ser o actor principal, Edward Norton merece aplausos pela forma como interpretou Balduíno IV. Com a voz ligeiramente abafada para emular o uso da máscara, o actor não quis ser creditado para encarnar uma personagem cuja autoridade reside na justiça e no esforço para manter a paz. Ghassan Massoud também se destaca pela forma como deu vida a Saladino, dando-lhe uma força e dignidade que teríamos visto no verdadeiro sultão. Eva Green faz um trabalho brilhante, embora dê à personagem um peso e maturidade que não combinam com a idade que teria (cerca de 21 anos). Apesar de receber uma personagem horrível e unidimensional, Brendan Gleeson está felicíssimo e diverte-se muito. David Thewlis, Jeremy Irons e Liam Neeson dão um trabalho impecável, embora o filme não os deixe brilhar muito. Martin Csokas faz o que pode numa personagem mal estruturada e Orlando Bloom é um erro de casting. Balian tinha de ser mais velho e experiente, só assim faria sentido que um ferreiro pobre e jovem no início do filme tivesse o tempo para adquirir a habilidade de combate e capacidade de liderança que depois põe a uso na batalha! A personagem não tem força, não tem “calos” da espada e é demasiado anacrónica nas ideias e gestos! Ele fala, pensa e age como um idealista hippie do século XX que resolver tudo com florzinhas! Falar dos problemas no elenco leva-me a falar na anacronia que perpassa todo o filme como uma maldição. O argumento faz muita coisa bem feita, usando factos históricos (a Batalha de Hattin e a Queda de Jerusalém) como esqueleto para uma história inventada: a cena com Balian entre os mortos enfatiza o peso da derrota em Hattin e a sequência do cerco é exemplar, incluindo detalhes como o papel decisivo de Balian, a negociação com Saladino e a ameaça de destruir a cidade. É pena que, após tanto respeito pelos factos, o filme ignore que Saladino só deixou sair da cidade os cristãos que pagaram a sua liberdade com ouro. Nos dias subsequentes à rendição, Balian e o patriarca de Jerusalém gastaram todo o ouro que havia para pagar a liberdade do máximo de cristãos que conseguiram, não chegando para todos! Outra falha é a cronologia: apesar de o filme acelerar os acontecimentos após a morte de Balduíno IV (1185), passam dois anos nos quais o trono pertenceu ao seu neto, Balduíno V, filho de Sibila, que era a regente. O filme faz com que dois anos passem em cinco minutos! Não contente com estes atropelos, Ridley Scott fez uma patifaria inominável: pegou em figuras históricas reais e deu-lhes uma história criada por ele para transmitir valores de tolerância religiosa e cultural que pertencem ao século XXI, mas que as pessoas do século XII nunca iriam compreender! Scott faz de Balian d’Ibelin um pragmático herói do povo, idealista, tolerante e humanista, nobre nas atitudes e moralmente impoluto. Porém, o verdadeiro Balian nasceu em Jerusalém, filho legítimo de Barisan, cavaleiro e nobre feudal, herdou os bens do pai e casou com Maria Comnena, viúva de Amalrico I de Jerusalém, pai de Balduíno IV, tornando-se parte da Casa Real. Sempre foi católico e tinha quase 50 anos em 1187. Balduíno IV é retratado como um rei sábio e tolerante que queria a paz e sofria de lepra escondendo o rosto. O verdadeiro Balduíno subiu ao trono ainda menor, mas foi um bom rei e chefe militar; com 16 anos, preso ao cavalo para não cair, venceu Saladino na Batalha de Montgirard. Ficou cego, mas não usou máscara nem deixou que a lepra o impedisse de governar. Não fazia a guerra ofensiva, mas defendia-se pela força, respeitando as tréguas por honra, não por princípio. Para dar ao filme os vilões ideológicos ideais, Scott demonizou o Patriarca de Jerusalém e Renald de Châtillon, transformando-os em figuras cobardes, unidimensionais e caricaturais. Isso até pode encaixar-se no verdadeiro Renald, uma figura odiada pelos muçulmanos por atacar as caravanas e peregrinos para roubar, valendo-se do apoio político para escapar impune até ser morto por Saladino, mas o filme é brutalmente injusto com Heráclio, o patriarca de Jerusalém; ele não se fez sacerdote por vocação, era um mundano e hábil guerreiro que ajudou Balian na defesa e na paga do resgate. Se o filme usa as duas personagens para encarnar o fanatismo extremo e a corrupção, Scott usa Guy de Lusignan para criar um vilão digno do nosso ódio. No filme, ele é um fanático estúpido e arrogante, sem competência política ou militar e cuja importância vem da aliança com os templários e do casamento com Sibila. O verdadeiro Guy era um político astuto que tentou capitalizar o poder adquirido pelo casamento, mas não se conseguia impor aos nobres, que o viam como um igual. Foi isso que ditou o fim trágico da Batalha de Hattin: ele quis ser prudente, mas enfrentou a oposição dos outros chefes militares. Scott também procurou romantizar Saladino, num esforço para mostrar a dignidade e honra que existiam do lado muçulmano. Assim, o Saladino ficcional é um rei ideal, sábio, tolerante, que respeita os cristãos e só faz a guerra quando provocado. O verdadeiro Sultão de Damasco era mais complexo: após passar a vida toda em combate contra outros reis muçulmanos para impor a sua autoridade como Califa (chefe de todo o Islão), ele tornara-se um governante admirado pelos cristãos, incluindo Balduíno IV e Ricardo I de Inglaterra, mas muito perspicaz e inteligente. A conquista de Jerusalém não foi um golpe da sorte, mas o pináculo de uma campanha militar de anos que consolidou o seu poder no mundo islâmico. A sua famosa generosidade era usada como uma ferramenta de poder e de propaganda, por isso só deixou sair da cidade quem pagou pela liberdade. Tratando-se de um filme de Ridley Scott, tanto desrespeito pelo rigor histórico não é surpreendente. Ele serve-se da história para o seu interesse, respeita-a tanto quanto a uma prostituta decadente. Uma forma inteligente e intelectualmente honesta de juntar o rigor histórico com a criatividade da ficção seria criar um núcleo de personagens 100% inventadas e pô-las no mesmo ambiente que as figuras históricas: Balian podia ter outro nome com a história e arco de personagem, podendo ser amigo e aliado do Balian real na corte do histórico Balduino IV e na defesa da cidade contra vilões ficcionais que ajudassem o Renald de Chatillon histórico ou procurassem tecer intrigas e ódios junto do Saladino histórico! Teríamos, assim, uma trama 100% ficcional encaixada num fundo histórico fidedigno. Mas a História encontra sempre a sua justiça: quando Scott revelou aos executivos da Fox um filme denso de quase três horas eles condenaram-no à guilhotina da sala de edição para uma versão teátrica de duas horas. O marketing pesado vendeu esse filme como um épico de aventura do director de “Gladiador”, o público saiu mais confuso do que entrou e a musa Clio riu-se do fracasso comercial sofrido. Só anos depois, com o Corte do Director, é que este filme pôde ser visto e compreendido da maneira que Scott desejava, mas o dano estava feito e Clio tinha tido a sua justiça.
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