
Tipo
Filme
Ano
1941
Duração
119 min
Status
Released
Lançamento
1941-04-17
Nota
8.0
Votos
5.987
Direção/Criação
Orson Welles
Orçamento
US$ 839.727
Receita
US$ 23.218.000
Temporadas
-
Episódios
-
Sinopse
O magnata da imprensa Charles Foster Kane é tirado de sua mãe ainda menino e colocado sob a tutela de um rico industrial. Como resultado, cada movimento bem-intencionado, tirânico ou autodestrutivo que ele faz pelo resto da vida parece ser, de alguma forma, uma reação a esse evento profundamente traumático.
Elenco principal
Reviews
Total: 3
Filipe Manuel Neto
**Um filme bom, mas que pode ou não ser o melhor de sempre.** Este filme centra-se na figura do Sr. Kane, um barão de notícias que acabou de falecer, deixando os jornalistas a questionar-se sobre o significado das suas misteriosas e enigmáticas últimas palavras. Dirigido e escrito por Orson Welles, que dá vida ao papel principal, este filme também tem a participação de outros actores e é por muitos considerado dos melhores filmes já feitos. Em primeiro lugar, é necessário esclarecer uma coisa: apesar de muitas pessoas considerarem este filme como o melhor de sempre, essas considerações são subjectivas e provavelmente discutíveis. Cada pessoa tem o direito de pensar de outra forma. Quando vi esse filme a primeira vez não consegui entender por que foi tão aclamado pela crítica. Actualmente, sou mais capaz de entender os seus motivos. Os actores brilharam nos seus papéis, particularmente Welles, que se tornaria um dos maiores nomes do cinema do seu tempo. O roteiro é simples mas conta uma boa história, que aborda questões tão importantes como a simplicidade e a verdadeira felicidade. É um filme feito com amor por todos os envolvidos, onde cada detalhe foi pensado e repensado. O uso da narrativa não-linear, por via de flashbacks, permite ao público analisar a vida do falecido magnata, uma personagem desaparecida, mas que está sempre presente no filme. O cenário é excelente e até os ângulos da câmara foram pensados de uma forma inovadora e original. Por tudo isso, este filme foi considerado um marco. Não tem uma história que vá ficar para sempre na nossa memória mas mostrou à indústria que certas técnicas narrativas, de luz, de filmagem etc. eram realmente possíveis e tinham mérito artístico. Então, o meu conselho é para que esqueça os críticos, especialistas e doutores. Esqueça tudo o que disseram e simplesmente veja o filme, aproveite-o e avalie-o antes de pensar seriamente sobre isso.
Robotic2y
**Uma Obra-Prima que Revolucionou o Cinema** Dirigido e estrelado por Orson Welles, Cidadão Kane é frequentemente citado como um dos maiores filmes da história do cinema. Lançado em 1941, a obra revolucionou a linguagem cinematográfica com suas inovações narrativas e técnicas de filmagem, sendo uma referência até os dias de hoje. A trama acompanha a investigação de um jornalista sobre a última palavra dita pelo magnata da imprensa Charles Foster Kane: "Rosebud". A partir desse mistério, o filme reconstrói a vida do protagonista por meio de flashbacks e depoimentos de pessoas que o conheceram, revelando sua ascensão, poder e eventual decadência. Inspirado na vida do magnata da comunicação William Randolph Hearst, Kane é um personagem complexo, ambicioso e trágico. O grande trunfo do filme está em sua direção inovadora. Welles e o diretor de fotografia Gregg Toland usaram técnicas como profundidade de campo, ângulos de câmera expressivos e montagem não linear, criando um visual marcante e dinâmico. O roteiro, escrito por Welles e Herman J. Mankiewicz, equilibra crítica social, drama psicológico e um mistério envolvente. Embora tenha sido um fracasso comercial em seu lançamento, Cidadão Kane conquistou um lugar definitivo na história do cinema, sendo redescoberto e aclamado ao longo das décadas. Sua influência pode ser vista em inúmeros filmes que vieram depois, e seu legado permanece intacto como um exemplo de inovação e excelência cinematográfica. Se você gosta de filmes que exploram a complexidade humana e a natureza do poder, Cidadão Kane é uma obra obrigatória.
Filipe Manuel Neto
**A OUSADIA CRIATIVA DE ORSON WELLES NUM FILME QUE SE ATREVE A EXPERIMENTAR COISAS DIFERENTES.** CRÍTICA QUE ESCREVI APÓS REVER O FILME. Se “Gone With the Wind” se deve à visão férrea de David O. Selznick, este filme é fruto do engenho de Orson Welles, alguém que nem sequer queria fazer cinema. Ele fizera uma carreira sólida como encenador no teatro e na Broadway, mas ficou mais famoso ao dirigir e narrar a transmissão de rádio de “A Guerra dos Mundos”, a 30 de Outubro de 1938, cujo realismo causou pânico nos ouvintes. Welles continuou no teatro e foi recusando as propostas de Hollywood, mas acumulou prejuízos devido ao fracasso de duas peças. Para os pagar aceitou, em 1939, a oferta da RKO Radio Pictures, a mais generosa já feita por um estúdio a alguém de fora do cinema: deveria dirigir, produzir e escrever dois filmes até 500 mil dólares, mantendo o controlo criativo, a escolha do elenco e equipa, o privilégio de corte final e o direito a 20% dos lucros após o estúdio recuperar o investimento. Hollywood riu de George J. Schaefer, o patrão da RKO, por dar tanto a um novato de 24 anos numa altura em que a Europa acabava de se envolver numa guerra que tinha tudo para se alastrar. Welles pensou numa história sobre a vida de um homem poderoso vista por várias personagens, explorando a ideia de que ninguém é entendido quando visto de um só ângulo, e deu as suas notas a Herman J. Mankiewicz, contractado para escrever o argumento. O contracto negava-lhe o direito a crédito como argumentista, mas ele aceitou à mesma, isolado num rancho californiano para curar o alcoolismo e as feridas de um acidente, e criou uma história inspirada em William Randolph Hearst, um manipulador manda-chuva da imprensa. Mankiewicz fora a festas no Castelo Hearst até ser expulso de uma delas devido a uma embaraçosa bebedeira. Sentindo-se ridicularizado, passou a odiá-lo e vingou-se: Kane, como Hearst, é um multimilionário da mídia que vive num castelo excessivo e manipula as notícias segundo as conveniências. A gota de água foi a palavra «rosebud» usada no filme, que Hearst usava carinhosamente para as partes íntimas de Marion Davies, sua companheira. Davies era uma actriz cómica talentosa por quem ele se apaixonou, e que era conhecida pela sua afabilidade, boa índole e generosidade. No filme, é trocada por Susan, uma cantora lírica falhada que depende da protecção do marido rico. A caricatura é tão dura e injusta que, anos depois, Welles lamentou deixá-la passar. De facto, o texto final coube a Welles, que compôs o texto de Mankiewicz a seu gosto, cortando material, adicionando cenas e remontando tudo. Meses depois, e sem ter direito, Mankiewicz exigiu crédito pelo argumento e a RKO chegou a um acordo dividindo o crédito pelos dois. Welles explorou todas as potencialidades narrativas, técnicas e visuais do seu tempo durante as filmagens nos dois estúdios RKO de Hollywood e Culver City. Ele dirige com criatividade e curiosidade, passando horas com Gregg Toland, o cinegrafista, a experimentar ângulos e enquadramentos de câmara. Uma das inovações foi o foco profundo, que usa luz forte e lentes grande-angulares para manter focados ao mesmo tempo objectos em primeiro plano, plano médio e fundo. Também filmaram cenas de Kane em ângulo baixo após rebentarem o piso do estúdio para pôr a câmara mais baixa. E como os estúdios não tinham tecto, puseram lonas para ocultar microfones e forçar a iluminação lateral e filtrada, mais dramática. Para criar a imponência de Xanadu, usaram maquetes e pinturas mate que combinaram com efeitos de som e uma disposição criativa de adereços e móveis criando a ilusão de amplitude num cenário limitado. Sendo um homem da rádio, tinha sensibilidade para usar o som: contrariando o habitual, sobrepôs os diálogos colocando as personagens a falar em cima das outras e a interromperem-se, dando mais realismo às cenas. Também usou truques sonoros para criar ilusões de espaço e usou a banda sonora e diálogos para ligar cenas no mesmo cenário, mas separadas por vários anos, como na cena do pequeno-almoço. Neste filme, o som não é um acessório, é tão importante quanto a imagem, sendo o silêncio explorado para revelar a solidão de Kane e os ecos para revelar a espacialidade profunda da sua mansão opressivamente imponente. Bernard Herrmann, na sua estreia como compositor de bandas-sonoras de cinema, deixa uma marca potente no filme ao dar-nos uma sonoridade profunda e impactante. Podendo escolher o elenco, Welles trouxe os actores do Mercury Theatre, a sua companhia de teatro, pois já o conheciam, estavam habituados ao seu estilo de direcção e mantinham-se coesos como grupo, apesar de quase nenhum ter experiência no cinema. Merecem destaque Joseph Cotten, que cria uma química notável com Welles, Dorothy Comingore, numa boa performance trágica, Ruth Warrick e Agnes Moorehead. E o que dizer da interpretação do próprio Welles? A verdade é que ele é talentoso e carismático, a personagem ganha com isso e o público recebe um exercício dramático competente. No entanto, o que se destaca é a forma como ele envelhece diante dos nossos olhos, seja através da modulação da voz e dos movimentos, seja através do uso de próteses de borracha e de outras técnicas de maquilhagem. Ele consegue transformar Kane num homem que, a pouco e pouco, se perde de si mesmo para só se reencontrar no momento da morte. Este filme tem sido recorrentemente apontado pela crítica como o melhor filme já feito. É uma honraria quase consensual entre cinéfilos, e que a votação da revista britânica Sight & Sound, feita todas as décadas, ajudou a consagrar, pondo este filme em primeiro lugar entre 1962 e 2002. Para o público comum, que apenas vê os filmes sem estar a pensar muito neles, isso parece inexplicável: de facto, não é o tipo de filme que fica marcado na nossa memória. O elenco, incluindo Welles, faz um bom trabalho, mas nada de absolutamente colossal ou memorável, e a história contada, apesar de ser um bom estudo de personagem, é bastante banal. O que torna o filme especial e tão importante é tudo o resto! É o seu carácter quase experimental e profundamente artístico! Welles conseguiu algo inédito para um novato: o apoio incondicional de um grande estúdio para fazer o filme que queria, como queria, sem intromissões e tendo por único limite o orçamento. Ele podia ser ousado, colocar a arte acima das demais preocupações. Welles nunca se importou com o que o público queria ver, nem com a reacção ao seu filme, tanto que o público estranhou e o filme fracassou miseravelmente! Para sermos honestos, temos de atribuir boa parte do fracasso a William Randolph Hearst. Ele vingou-se com dureza, proibindo as dezenas de jornais e revistas que detinha de fazerem a menor menção ao filme, a Welles ou a Mankiewicz, e passou os anos seguintes a vilipendiá-los e atacá-los na imprensa. Numa época em que a publicidade do cinema dependia dos jornais, isto foi um golpe duro para o filme! Receando que a ira de Hearst se espalhasse a toda a indústria de Hollywood, vários estúdios quiseram comprar o filme à RKO para darem fim ao negativo antes do lançamento. A MGM, de Louis B. Mayer, chegou a oferecer 800 mil dólares! Além disso, quando o filme finalmente foi lançado, Hearst boicotou o filme ameaçando processar todos os cinemas que o exibissem, o que acobardou muitos cinemas. A viragem só aconteceu nos anos 50, quando os franceses da “Cahiers du Cinéma” redescobriram o filme e lhe gabaram as virtudes técnicas que temos estado a elencar. O filme pode parecer banal, mas é profundamente metalinguístico, uma aula condensada de técnica, que nos ensina como se faz cinema e que é objecto de estudo de todos os aprendizes de cinema! A sua trama pode até parecer banal, mas não é uma premissa para fazer um filme: Welles desconstrói o sonho americano, despe um milionário de toda a sua imponência dissecando-o gradualmente para nos mostrar o seu vazio existencial mais profundo. No fim, o seu legado é um castelo massivo e um somatório contraditório de depoimentos a que fica sempre a faltar uma peça central, que é o próprio individuo e a sua alma. Em anos recentes, o consenso em torno do filme tem sido rompido por uma mudança dos critérios de avaliação que valorizam mais aspectos que, dantes, passavam ao lado. Eu, pessoalmente, acho que é algo muito subjectivo, e que a voz do público geral vale tanto quanto a de um crítico doutorado. Cada pessoa tem o seu próprio julgamento de qual é filme de todos os tempos, ou pelo menos o melhor filme que já viu num cinema. E está tudo bem! Não é por isso que este filme ou qualquer outro irá perder o seu mérito.
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