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Filipe Manuel Neto
**Zé do Telhado: de bandido e assassino a herói romântico e cavalheiresco digno de filme.** Portugal tem alguns heróis românticos, mas poucos são tão marcantes quanto o bandido Zé do Telhado, um bandoleiro da primeira metade do século XIX que, após ter sido militar e ter combatido na Revolta da Patuleia (onde salvou a vida do general Sá da Bandeira, que lhe deu a condecoração da Torre-e-Espada, por bravura), volta para casa e se põe à frente de um bando de assaltantes, que eram recrutados para cada trabalho e à medida do que fosse necessário, ao mesmo tempo que conservava a profissão original, castrador de animais. Apesar da preguiça mental que impera na nossa sociedade, basta a leitura atenta do processo-crime e do julgamento do famoso bandido para verificarmos a sua rispidez e brutalidade. Era um homem violento, fruto de uma época violenta e cheia de conflitos e ódios mal disfarçados. Entre 1843 e 1859, cometeu diversos assaltos à mão armada e, pelo menos, dois assassinatos. O seu acto criminoso mais bem conhecido foi o assalto à Casa do Carrapatelo, a mansão de Ana Vitória de Vasconcelos da Fonseca Lemos, viúva recente a quem o bandido resolveu sacar a herança, em pratas, jóias e moedas de ouro. A ousadia do assalto levou as autoridades a tomar medidas sérias contra o bandido, mas só o apanhariam anos depois. Na prisão, torna-se amigo e guarda-costas do escritor Camilo Castelo Branco, que receia que alguém o tente matar na prisão, a mando do seu inimigo, Pinheiro Alves. Quase podemos dizer que, em troca, o escritor não só lhe emprestou um bom advogado como lhe dedicou largas páginas do seu livro “Memórias do Cárcere”. A memória do bandido, além de ter sido eternizada, acabou glorificada como um defensor dos pobres, dos oprimidos e da luta contra os desmandos dos ricos e poderosos, o que é, talvez, uma das maiores mentiras da história de Portugal. O filme, que avisa logo ao início que não é, e nem quer ser, um relato biográfico fiel, segue de modo relativamente honesto o relato, apaixonado e grato, de Camilo, e dá-nos a visão de um herói romântico, um homem fadado à desgraça, mas valente, piedoso e leal. Dirigido por Armando de Miranda, é um daqueles filmes portugueses que está no baú do esquecimento, que pouca gente recorda porque não faz rir ninguém, e que podia bem ser alvo de um remake do Leonel Vieira ou de qualquer outro director que quisesse fazer um filme sobre esta insigne figura da literatura e da história. Virgílio Teixeira deu vida ao protagonista de uma maneira cavalheiresca, como um herói de conto, e Adelina Campos não lhe fica atrás. São bons actores, mas este não é, de facto, um dos trabalhos mais interessantes que eles fizeram.
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