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Filipe Manuel Neto
**Um filme que deixou pouca marca, mas mostra as dificuldades de fazer cinema sob uma ditadura… e que belo era o Porto antes de estragarem a cidade.** O cinema português tem um leque restrito de grandes clássicos que todos conhecem e que ainda continuam a conquistar público nos dias actuais, através das exibições regulares na RTP (o grupo estatal de rádio e televisão) e um certo estatuto “cult”. “A Costureirinha da Sé” não é um desses filmes. Surge tarde, anos depois da “idade de ouro” do cinema em Portugal, e parece estranho pelo facto de ser um filme colorido. De facto, e tanto quanto consegui perceber, este foi um dos primeiros filmes portugueses a cores. É um passo em frente no domínio técnico, trazendo para Portugal as tecnologias de colorização que já estavam em voga há anos nos EUA, nomeadamente o “cinemascope”. O filme foi criado e dirigido por Manuel Guimarães, um cineasta que até então ia beber a sua inspiração ao neo-realismo italiano. Em estreita colaboração com Alves Redol, ele tinha feito vários filmes onde fazia o retracto duro da pobreza imperante e do atraso do país, tais como “Nazaré” e “Vidas Sem Rumo”, e foi castigado pela censura prévia com cortes impiedosos que tornaram os filmes numa sopa amorfa e incompreensível, que viria a condená-los ao fracasso. Não nos esqueçamos de que, nesta época, o cinema era revisto e censurado pelas autoridades. Foi por causa disso que, após vários filmes documentando eventos desportivos, quis fazer este filme, mais ingénuo e com menos carga ideológica, que foi mais bem recebido pelos censores, mas cujo financiamento dependeu do patrocínio de empresas que inseriram imensa publicidade, visível e irritante. Infelizmente para Manuel Guimarães, quem nunca compreendeu esta viragem de estilo e de posição foram os críticos e académicos portugueses, que pareciam ter apreciado a sua postura inicial. É fácil criticar quando não se sente na pele a dificuldade de fazer cultura num regime ditatorial. Há quem resista e pague o preço, há quem prefira não fazer mais nada e há quem tente alinhar-se com o sistema. Guimarães parece ter optado pela terceira via e eu não o critico. Após o fracasso deste filme, várias curtas-metragens que o mundo esqueceu e mais duas ou três longas, Guimarães encerraria a sua carreira na morte. Ainda viu voltar a democracia a Portugal, mas não viveu o bastante para fruir dela. O filme não deixou marca perene no cinema nacional e hoje raramente é exibido. Como eu disse, tem uma carga de publicidade que é bastante notória, e a que os portugueses não estavam acostumados. Por isso, desagradou a toda a gente. Tem algumas canções boas e os actores fazem um esforço decente, ainda que nenhum deles seja particularmente bom e marcante. A colorização é muito bonita, a cinematografia não podia ser mais elegante e o trabalho técnico do filme é eficaz. Além disso, o filme faz um excelente uso dos locais de filmagem, no centro da cidade do Porto. Para mim, é absolutamente delicioso ver estas imagens da minha cidade natal no tempo em que eram jovens os meus pais, e rever, por exemplo, os jardins da Avenida dos Aliados, aonde eu próprio ainda brinquei quando criança. Ainda me lembro, também, de quando vivia gente nas casas velhinhas junto da Sé, onde hoje só vemos turistas com mil e uma línguas e um indispensável trólei a rolar pelas pedras atrás dos seus pés. Para mim, é o maior valor do filme: ver o Porto, o meu Porto, quando ainda pertencia aos portuenses e não se havia transformado num parque de diversões para estrangeiros endinheirados, como foi do desejo dos governantes lisboetas e do Senhor Autarca, cujo nome me recuso a pronunciar.
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