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Filipe Manuel Neto
**Um romance pueril em meio à heroicização dos massacrados soldados portugueses da Flandres.** Este é um daqueles antigos filmes portugueses que acabou esquecido em detrimento dos grandes clássicos consagrados que todos conhecemos e amamos. Dirigido por Jorge Brum do Canto, o filme não é notável, tem uma narrativa básica e um conjunto de actores que é excessivamente teatral, para dizer o mínimo. No entanto, ainda assim, o filme poderia perfeitamente ser exibido ocasionalmente pela RTP que, para infâmia das concorrentes, continua a ser a única emissora portuguesa de televisão a manter a exibição regular de cinema clássico nacional (esperemos que isso nunca mude, como infelizmente sucedeu com a transmissão regular de espectáculos de tauromaquia, mantida durante anos em prol da cultura e da representatividade de todos os cidadãos que pagam taxa audiovisual, e em anos recentes abolida para satisfazer o ódio dos jovens “doutores” da esquerda Woke). O filme passa-se durante a Primeira Guerra Mundial, em que Portugal teve a infelicidade de participar: além do perigo para a manutenção das colónias africanas, obrigavam-nos a tal sacrifício os desejos de reconhecimento internacional dos novos líderes republicanos, ambiciosos e ruidosos na política doméstica, mas, na sua maioria, despidos de méritos individuais, capacidade política e tacto diplomático básico. Após se implantar em cima do sangue de um rei soberano e de um herdeiro da coroa, a jovem República Portuguesa ansiava pelo sangue de milhares de soldados portugueses recrutados e treinados à pressa, a fim de se mostrar digna de se sentar, como uma igual, entre as grandes nações europeias. João Ratão é um desses soldados, e deixa para trás um amor a quem escreve copiosamente na ânsia de voltar. Muitos o fizeram, muitos nunca voltaram. O filme concentra-se nisso, nesse romance do soldado com a menina da aldeia que o espera, ignorando o triste fado de fome, lama, piolhos e morte que a maioria dos soldados portugueses padeceu enterrada nas trincheiras de La Lys, onde muitos foram desfeitos em pedaços a 9 de Abril de 1918. O filme não é notável, e a maneira como apresenta a sua história é pobre. Senti falta de uma maior noção do que é cinema, e de como se trabalha. Brum do Canto parece estar-se a borrifar para a qualidade dos diálogos e da interpretação do seu elenco, concentrando-se apenas na narrativa quase pastoril de um país simples e humilde, mas patriota e sempre disposto a sacrifícios quando o chefe ordena. Sob essa perspectiva, nota-se aqui o aroma da propaganda do Estado Novo, o “tudo pela nação, nada contra a nação”, evocando-se a memória heroicizada dos soldados da Flandres, vencedores inglórios de uma guerra que pouco ou nada tinha a haver com o nosso país.
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