
Tipo
Filme
Ano
1959
Duração
149 min
Status
Released
Lançamento
1959-06-18
Nota
7.2
Votos
205
Direção/Criação
Fred Zinnemann
Orçamento
US$ 3.500.000
Receita
US$ 12.800.000
Temporadas
-
Episódios
-
Sinopse
Em 1930, o jovem Gabrielle Van der Mal entra em um convento em sua Bélgica natal para se tornar uma freira. Quase imediatamente, ela tem dificuldade para se ajustar à vida de clausura, e seu votos de pobreza, castidade e obediência. Ela duvida a sua própria capacidade, mesmo quando ela faz seus votos perpétuos. Gabrielle, agora chamada de Irmã Luke, se destaca em seus estudos médicos e sonhos de servir no Congo Belga.
Elenco principal
Reviews
Total: 2
Filipe Manuel Neto
**Devia ser mais visto pelo público actual.** Este filme mostra a vida de uma freira belga, desde o momento em que ela entra para o convento e através de sucessivas crises de vocação e uma missão no Congo Belga. Dirigido por Fred Zinnemann, o filme tem um roteiro de Robert Anderson, baseado num livro de ficção de Kathryn Hulme. O elenco é liderado por Audrey Hepburn, no papel principal. Apesar de ter sido nomeado para oito Óscares (Melhor Imagem, Melhor Actriz, Melhor Director, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Som, Melhor Cinematografia a Cores, Melhor Banda Sonora e Melhor Edição), este filme foi ignorado pelas pessoas nas últimas décadas, o que faz com que seja um dos menos conhecidos da longa carreira de Audrey Hepburn. Claro, muitas pessoas pensam, ao ler o título, que é pura propaganda católica, e talvez seja por isso que não é muito conhecido. Mas este filme está longe de ser propaganda apesar de mostrar, com precisão, o _modus vivendi_ de uma freira no início do século passado. Acompanhar a época é muito importante para entender o filme, que se passa no período entre o final da Primeira Guerra Mundial e o arranque da Segunda Guerra Mundial. Também ajuda a entender uma coisa que o filme não nos diz, mas que qualquer pessoa nota depressa: o modo de vida das freiras que vemos do filme caiu em desuso há décadas devido à enorme modernização que a Igreja Católica sofreu, principalmente após a aplicação do Concílio Vaticano II. O roteiro é excelente, embora não seja, como algumas pessoas pensam, uma história verdadeira. Grande parte do filme é ficção inspirada por factos reais, mas não deixa nunca de ser ficção. É uma história de sacrifício, amor, superação, vocação e paixão por uma profissão: medicina. É sempre com o foco na medicina que a jovem entra para o convento e se torna religiosa. Mas é também um filme sobre dúvidas, conflitos internos e pessoas que tentam ser melhores ao enfrentarem as suas falhas e a sua humanidade. Audrey Hepburn brilhou como Gabrielle/Irmã Luke, e o seu rosto bonito deu-lhe uma aparência quase angelical e uma presença verdadeiramente poderosa. A maneira como ela contracena com Peter Finch, que fez um médico do Congo com ideias muito específicas e quase sem fé, é deliciosa. Os cenários são muito bons, recriando bem o ambiente religioso e a África quase selvagem, onde os europeus foram pioneiros naqueles anos. Decididamente, este filme é digno de ser visto com mais frequência pelo público actual. O final é um dos mais incríveis que eu já vi, por dois motivos: primeiro é absolutamente silencioso e sem música; segundo, depois de ver esta freira sofrer tanto pelos seus sonhos, é impossível para ela não ganhar o carinho do público, por isso o fim torna-se difícil de aceitar.
Filipe Manuel Neto
**AUDREY HEPBURN SEM GLAMOUR NUM DOS MELHORES E MAIS SUBVALORIZADOS FILMES DA SUA CARREIRA.** _CRÍTICA QUE FIZ APÓS REVER O FILME_ Em 1956, Kathryn Hulme publicou “The Nun’s Story”, romance baseado em situações reais vividas por Marie Louise Habets, ex-freira e enfermeira que conheceu num campo de refugiados europeu e que se tornou na sua companheira, indo viver com ela nos EUA sem que nenhuma delas tenha assumido publicamente o romance (o que faz sentido considerando a época e o facto de ambas serem católicas). A diferença entre o que é dito e o que é calado é um dos temas presentes no livro, onde uma freira belga se vê confrontada com dualidades difíceis entre o dever religioso e o seu papel de enfermeira. O sucesso do livro convenceu Robert Blanke, da Warner Bros., a comprar os direitos de cinema, crente que a humanidade da trama superaria qualquer polémica religiosa. Para a direcção, chamou Fred Zinnemann, que adorou a ideia. A adaptação do argumento revelar-se-ia espinhosa. Robert Anderson, o argumentista, deparou-se com uma surda reprovação das organizações conservadoras, como a Legião Nacional da Decência, e da própria Igreja, que considerou que o livro prejudicara o desenvolvimento de novas vocações. A produção teve de limar arestas do roteiro, evitando o retrato pessimista da vivência de clausura e assumindo que o problema não é das regras, mas da incapacidade pessoal em se adequar a elas. Só com tal jogo de cintura é que os produtores convenceram as autoridades religiosas, em particular as Irmãs de Caridade, a ajudar e a mostrar como era o quotidiano de uma congregação real. Os elementos da produção puderam passar semanas em conventos. Hulme e Marie Louise também ajudaram, tanto na escrita quanto na preparação do elenco, em especial Audrey Hepburn, que desenvolveu uma amizade com elas e aprendeu não só como devia esconder as mãos no hábito e rezar convincentemente, mas também técnicas de enfermagem reais. A Warner Bros. destinou um orçamento de 3,5 milhões de dólares, valor considerável para a época, que deu ao director a oportunidade de filmar nos locais reais: Bruges e Antuérpia foram usadas para as cenas do início, principalmente exteriores; as cenas de estúdio decorreram em Roma, na Cinecittà e no Centro Sperimentale di Cinematografia; para o segmento africano foram para Stanleyville, no Congo Belga (hoje Kisangani, D.R. Congo). Esta foi a parte mais desafiante das filmagens devido à humidade e calor extenuante da região, sem falar nas doenças tropicais, como malária e disenteria, que se espalharam pela equipa e elenco. Edith Head fez os figurinos com um grande realismo, replicando os hábitos das Irmãs de Caridade com tecidos pesados de lã que causavam agonia às actrizes no Congo. O toucado recebeu especial atenção: feito para ser rígido, forçava uma postura mais erecta e restringia a visão periférica. Os cenários foram feitos por Alexander Trauner, que se focou em espaços impessoais, frios e solenes para o convento, e em espaços amplos, com luz e ventilação, para o hospital, cujo cenário era composto com material médico verdadeiro. Inicialmente, Zinnemann queria filmar a preto-e-branco excepto nas cenas africanas, mas o cinegrafista Franz Planer dissuadiu-o, sugerindo que o contraste fosse feito subtilmente, por via do tratamento visual da imagem: assim, temos uma paleta de cores frias e baixo contraste nas cenas europeias e uma explosão de cores quentes e orgânicas na África Colonial. Filmaram em película Widescreen 1,85.1 Eastman Kodak, depois tratada pelo processo Technicolor, em câmaras Mitchell BNC com lentes não-anamórficas Baush & Lomb Baltar, dando maior profundidade vertical, nitidez, estabilidade e serenidade às cenas, além de um tom suave à pele que faz Hepburn resplandecer quando aparece em cena. Infelizmente, este material causou dificuldades técnicas sérias no Congo: a humidade obrigava a que as películas fossem fechadas em caixas herméticas com sílica gel e logo que possível enviadas de volta para a Europa, não fosse o calor comprometer a colorização! Os produtores conseguiram reunir um elenco luxuoso: Patricia Bosworth foi escolhida para uma das noviças, mas descobriu que estava grávida e só foi para a Europa após se submeter a um aborto ilegal, vindo a sofrer de hemorragias que a obrigaram a parar de trabalhar algumas semanas; Colleen Dewhurst fez, neste filme, a sua estreia cinematográfica no papel de um doente mental; Dean Jagger e Peggy Ashcroft oferecem-nos uma performance eficaz e agradavelmente contida em papéis secundários. Porém, quem brilha são os três actores do núcleo central. Comecemos por Edith Evans, uma grande dama do teatro britânico com uma carreira mais do que respeitável: ela oferece-nos, aqui, um dos trabalhos mais competentes da sua carreira de cinema, sendo essencial para fazer o público compreender que a vida de clausura não é opressiva, não é uma prisão, mas tem regras nas quais ela, como superiora, acredita piamente sem deixar de tentar ser uma verdadeira orientadora e figura maternal na vida das suas freiras. Ela não lhes deseja o mal, não as quer ali presas, quer que elas sejam capazes de se encontrar na serenidade silenciosa do convento, e de encontrar Jesus no silêncio orante. Ela é o exemplo a seguir e que nem todas as freiras conseguem seguir. Já Peter Finch é o seu total oposto! Ao dar vida a um médico brilhante, mas pragmático e totalmente agnóstico, força a personagem principal a rever as suas crenças e põe-na numa encruzilhada entre a vocação religiosa e o amor à medicina. É um trabalho de interpretação muito forte, embora não seja um dos melhores deste notável actor. Por fim, temos Audrey Hepburn. Os produtores estavam incrédulos quando ela aceitou o papel, mas ela tinha os seus motivos: ela queria que o mundo a visse como uma actriz real, não uma modelo de passerelle do Sr. De Givenchy que, por acaso, faz filmes! Ela precisava de se afastar das roupas luxuosas e das personagens de princesinha, e uma freira tácita e cheia de contradições psicológicas era o ideal. E ela empenhou-se a 110%! Ela aprendeu as técnicas de enfermagem, aprendeu a andar vestida naquele hábito, passava imenso tempo em silêncio e sozinha mesmo nos bastidores. Ela concentra-se nos detalhes, oferece-nos uma interpretação muito contida, onde o olhar quase nos diz tudo, mas densa e rica, como pede uma personagem que sabe sair de cena dignamente, de cabeça levantada, só com uma modesta maleta de cartão, num dos finais mais poderosos feitos para um filme. Os produtores só não a deixaram ter os cabelos cortados na cena da tonsura, obrigando ao uso de perucas especiais… mas aposto que a actriz até isso estaria disposta a fazer para nos mostrar que não era uma bonequinha de luxo! Ela mesma admitiu que a experiência mudou a sua vida e a sua mentalidade. O filme foi um tremendo sucesso quando saiu, ganhou uma boa quantidade de prémios e oito nomeações para o Óscar, saindo de mãos vazias graças ao concorrente “Ben Hur”. Não obstante, foi dos sucessos de bilheteira mais sólidos daquele ano e é surpreendente (ou não) que tenha caído no esquecimento! É um filme com bons actores e interpretações dramáticas, com um realismo quase documental no tratamento dos cenários e figurinos, uma narrativa densa e psicológica e uma estética subtil, mas elegante. Infelizmente, é também lento, longo e silencioso, e basta isso para o público dos nossos dias fugir dele. Aqui, boa parte do espaço que outros filmes reservam aos diálogos é ocupado por silêncios, pelos passos que ecoam nos corredores, pelo som ritmado das chaves e das contas do rosário: a serenidade claustral é autoridade, severidade e contemplação metafísica. Somos convidados a sentir o peso dos sons e a textura dos objectos, o que foge ao olhar do público que só quer o entretenimento, especialmente o público moderno, avesso ao exercício de pensar. Eu aceitei bem a lentidão narrativa e a dimensão de três horas, parecem-me essenciais à densidade da história contada. Apesar de a Igreja ainda valorizar o silêncio da vida contemplativa, o modus vivendi monacal mudou muito nas décadas em que o filme foi feito devido à adaptação às novas regras feitas no Concílio Vaticano II, o que dá a este filme uma visão quase documental de como era tudo antes dessa alteração importante. Apesar da lista de méritos que mencionei, especialmente nos aspectos técnicos e no trabalho dos actores, eu não lidei muito bem com a banda sonora de Franz Waxman. Senti que não se encaixa no filme. Um outro aspecto menos positivo deste filme é o branqueamento do passado colonial belga. Eu não sou um apologista das ideias Woke contemporâneas, que diabolizam o período colonial como uma vilania dantesca, mas tenho consciência de que houve terríveis indignidades cometidas contra os povos colonizados, muito especialmente em África, e muito especificamente no caso do Congo Belga, que, para mim, é um dos piores exemplos de colonização feita por países europeus. No Congo Belga, tudo o que podia correr mal correu muito mal, e o filme nunca se atreve a fazer eco dessa realidade, nem de maneira mais subtil, colocando, por exemplo, a freira-enfermeira a tratar os ferimentos de um espancamento contra um nativo, ou o coto amputado de um braço. Há formas subtis para o fazer sem que o assunto domine a narrativa, mas nem isso foi tentado.
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