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Filipe Manuel Neto
**Tem fraquezas, mas não deixa de ser um filme bastante bem conseguido e não faz mau serviço à obra genial de Eça de Queirós.** Quem me conhece sabe que sou bastante crítico quanto ao cinema português. Este filme não é, contudo, um dos piores: é um filme com muitas fraquezas, mas acho que consigo entendê-las e tolerá-las, ainda que não possa, em abono da justiça, ignorá-las. No geral, o filme dá-nos o que promete: uma trama fiel ao romance notável de Eça de Queirós, na qual exploramos a trágica história de três gerações de uma família nobre portuguesa, ao mesmo tempo que dissecamos a elite social do país, que o autor pinta com cores tristes. Para compreender “Os Maias” é preciso compreender Eça de Queirós. Ele provinha de meios sociais burgueses e casou com uma aristocrata. Era rico, diplomata de carreira, alguém que via o que acontecia no estrangeiro e compreendia o atraso e as debilidades, económicas, sociais e intelectuais, do país a que servia. E espelhou num pequeno grupo de personagens o que pensava da elite portuguesa: pessoas sem ideias, sem qualidades, desocupadas, moralmente decadentes, entregues a misticismos religiosos e a fanatismos ou, em contraponto, a debochados desvarios imorais regados a álcool e água-de-colónia barata, entretidas em jogos, corridas, teatros e ocupações fúteis. Uma sociedade rica que não fazia o país avançar para a frente, antes o entorpecia como um peso morto, e que, ao invés de imitar os bons exemplos das sociedades estrangeiras, apenas copiava as modas. João Botelho conseguiu pegar em tudo isto e dar-lhe corpo de maneira muito positiva. É claro, não se pode condensar um livro de seiscentas páginas num filme de duas horas, e qualquer pessoa de bom senso compreende a necessidade de fazer adaptações. No geral, o conteúdo das detalhadas descrições de Eça, que marcam tanto a sua maneira de fazer prosa, estão ali patentes nos cenários, nos adereços, nos figurinos, na atitude dos actores e na voz do Narrador. O elenco também fez um trabalho positivo: merecem destaque as actuações de José Neto, Filipe Vargas, João Perry, Graciano Dias e Pedro Inês, por esta mesma ordem, com este último actor a dar-nos uma visão particularmente inspirada do desgarrado, revolucionário e inconformado Ega. Maria Flor, por outro lado, não parece ter compreendido a personagem que, de resto, é a mais difícil da obra: só a vemos pelos olhares passionais das outras personagens, ora endeusada, ora demonizada. A actriz, no entanto, não parece ter a capacidade para se encaixar entre uma e outra, fazendo com a personagem o mesmo equilibrismo que Eça fez no seu texto. Mas estes problemas são questões menores. O filme cumpre o seu objectivo e não presta mau serviço ao livro original. A única coisa que realmente temos a lamentar é que quase tudo tenha sido filmado em cenários de teatro, sem fazer uso da beleza das ruas velhas de Lisboa, ou de outras localizações exteriores. O Teatro São Carlos, o Palácio da Ajuda e outros locais foram aproveitados de várias formas, e isso foi muito eficaz, mas faltam os exteriores. Talvez isso se deva a qualquer restrição de orçamento, e às dificuldades de cariz logístico que surgem quando se quer fazer uma filmagem numa rua de uma cidade tão movimentada como Lisboa. Se assim for, é algo que estou disposto a entender.
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