
Elenco principal
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Filipe Manuel Neto
**Uma pérola esquecida.** Feito durante a ocupação nazi da França, este pequeno filme é realmente uma preciosidade e é pena que, na época, os seus autores e alguns actores tenham sido tão maltratados dentro do seu próprio país à custa das acusações de colaboracionismo com os invasores, e de terem feito um filme que, alegadamente, fala mal do povo francês. Não é nada disso que está aqui em causa, o filme podia ser perfeitamente ambientado em qualquer parte da Europa ou mesmo nos EUA e não perderia rigorosamente nada com essa mudança. Tudo se passa numa pequena vila isolada onde, do nada, começam a aparecer imensas cartas difamatórias, anónimas, assinadas por uma figura que se chama, a si mesma, de “O Corvo”. Estas cartas vão divulgando os segredos e os pecados dos visados, as infidelidades, aquele género de coisas que nós preferimos que ninguém saiba acerca de nós. Porém, o principal visado acaba por ser um médico do hospital local, acusado de praticar abortos e de manter casos amorosos com várias mulheres da vila. Até aqui, nada de especial… mas um dos receptores das cartas vem a cometer suicídio por causa delas, dando origem a uma investigação policial. O filme tem imensas qualidades, muito embora não seja perfeito. Senti que começa de maneira muito abrupta, não introduz o ambiente nem a situação, e termina quase da mesma maneira: só nos instantes finais é que sabemos, finalmente, quem escreveu as cartas. Ao melhor estilo ‘noir’, nada é o que parece e não há ninguém inocente. Até das crianças acabamos por suspeitar. O elenco é muito bom e faz um trabalho muito competente, habilmente dirigido por Henri-Georges Clouzot. Pierre Fresnay é um protagonista carismático e com boa presença e Ginette Leclerc é magnífica, intensa e deliciosamente pouco ingénua. Pierre Larquey também faz aqui um trabalho verdadeiramente bom, cheio de personalidade e intensidade. Micheline Francey é igualmente uma boa adição, mas o papel dela não me pareceu tão impactante. Tecnicamente, é um excelente filme ‘noir’ com uma cinematografia muito boa e um uso hábil da luz e dos cenários. Não há aqui artifícios visuais, o filme assenta bastante no trabalho de câmara e há algumas cenas realmente incríveis, como quando vemos por um buraco de fechadura. Não há, igualmente, qualquer banda sonora, mas os efeitos sonoros e o som são bons.
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