
Tipo
Filme
Ano
2002
Duração
168 min
Status
Released
Lançamento
2002-12-14
Nota
7.3
Votos
7.137
Direção/Criação
Martin Scorsese
Orçamento
US$ 100.000.000
Receita
US$ 193.772.504
Temporadas
-
Episódios
-
Sinopse
William Cutting é o líder de uma gangue violenta na Nova York do século 19 que confronta seus rivais. Um jovem jura se vingar do perverso gângster que matou seu pai, mas fica dividido entre a sede de vingança e o fascínio pelo carismático Cutting.
Elenco principal
Reviews
Total: 2
Filipe Manuel Neto
**Geralmente positivo, mas com falhas a vários níveis.** Este filme mostra como Amsterdam Vallon tenta vingar a morte do seu pai numa luta de gangs contra Bill 'Carniceiro' Cutting. Dirigido por Martin Scorsese, o filme tem um roteiro de Jay Cocks e um elenco liderado por Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis e Cameron Diaz. Foi nomeado para dez Prémios da Academia. Este filme é interessante mas, na medida em que percebi, não corresponde à realidade. O rigor histórico manteve-se longe deste filme na maioria do tempo. Mas o roteiro ainda consegue ser interessante. Tem alguns pontos que não entendo mas funciona, destacando a luta entre dois gangs pelo controle do bairro pobre de Five Points. O mais poderoso, os "Nativos", defende que os imigrantes italianos e irlandeses são um perigo para a América e esquece que também foram imigrantes no tempo colonial (os verdadeiros americanos são as tribos indígenas). A partir daqui, o filme mostra como os EUA receberam ondas de imigrantes da Europa e como eram importantes para o país. O filme também mostra o esforço da Guerra Civil, as diferenças de opinião em torno dela, o racismo e a xenofobia reinantes e, ainda, a pobreza miserável em que viviam os mais pobres da sociedade. Os actores fizeram muito bem os seus papéis mas Daniel Day-Lewis merece uma menção especial. Ele monopoliza o filme com uma cuidadosa interpretação de uma personagem particularmente complexa e difícil. DiCaprio também foi bom, mas estava num papel que conhece bem: o bonzinho, o muito fofo que quer justiça. Cameron Diaz também não traz surpresas, com a sua dose usual de charme latino a dar alguma sensualidade a uma personagem oportunista e esperta. As cenas de acção são bastante gráficas, então os estômagos mais sensíveis devem estar preparados. Os efeitos visuais e sonoros são bons e ajudam a melhorar o filme. Os cenários foram muito bem imaginados, embora alguns deles sejam muito pouco realistas (o mesmo pode ser dito dos figurinos). No entanto, o filme geralmente é bom o suficiente para ser apreciado sem problemas e não darmos por perdido o dinheiro do DVD. A banda sonora é uma decepção porque tem uma sonoridade "rock" que não se encaixa num filme de época nem à martelada. Parece até algo copiado de filmes como "300" ou "Mad Max".
Filipe Manuel Neto
**O ÉPICO DRAMÁTICO QUE SCORSESE SONHOU E WEINSTEIN RETALHOU À CUTILADA.** CRÍTICA FEITA APÓS REVER O FILME. A paixão de Martin Scorsese pelo universo do crime começou na infância, no bairro nova-iorquino de Little Italy. Ainda jovem, percebeu a antiguidade da cidade vendo as ruas de paralelepípedos, as lápides mais antigas nos cemitérios e na Antiga Catedral de São Patrício. Fascinado pela história da cidade, resolveu investigar o tema e, em 1970, leu “The Gangs of New York”, de Herbert Asbury, publicado em 1927. Entendeu logo que tinha em mãos a história ideal para um filme sobre a origem do pensamento político e criminal dos EUA. Em 1979, Scorsese adquiriu os direitos do livro, mas o filme não só se tornaria uma obsessão de décadas como a sua produção, sozinha, podia dar a trama para outro filme. De facto, Scorsese queria um épico tão colossalmente caro que todos os estúdios (Universal, Disney, Warner, 20th. Century Fox, MGM e Paramount) o recusaram: implicaria uma produção cara, cenários gigantescos (por falta de locais reais) e uma meticulosa recriação de época. Tudo mudou em 1999 quando Leonardo Di Caprio, uma estrela global graças a “Titanic”, se interessou pelo projecto. Bastou isso para Harvey Weinstein, o infame presidente da Miramax, se apressar a aceitar a ideia e a garantir um orçamento de 80 milhões de dólares através da venda dos direitos de distribuição internacional e de uma parceria com a Touchstone Pictures. Começava assim uma relação de nojo e raiva entre director e produtor: Scorsese contratou Jay Cocks para o argumento, mas Weinstein “Mãos de Tesoura” (assim o chamavam) queria um filme de acção “pipoca” de duas horas que garantisse Óscares e demitiu o argumentista, trocando-o por uma equipa que, nos anos seguintes, foi revendo o texto num braço de ferro entre os dois. Quando as filmagens começaram ainda não havia argumento final. Weistein perdeu as estribeiras quando Scorsese decidiu fazer cenários na Cinecittà, em Roma, onde o designer de produção Dante Ferreti construiu cinco quarteirões da velha Nova Iorque: Five Points, partes da Broadway e do porto de East River (com dois navios de tamanho real), o Tammany Hall, uma igreja e outros locais, tudo em madeira e tijolo e tudo sujo de lama. Consultaram muitas ilustrações, material fotográfico e material escrito sobre os tecidos e materiais das roupas do período. Desejando uma cinematografia sombria de alto contraste, com tons ambarinos que aproveitavam ao máximo a luz das velas, lampiões e fogueiras, o cinegrafista Michael Ballhaus usou câmaras Arriflex 535/435, lentes Zeiss Variable Prime e película 35 mm Kodak Vision 500T 5279, que capta muito bem a luz amarelada e as cores vívidas e quentes do sangue derramado e das madeiras. Centenas de figurantes italianos foram contratados e treinados para executar as coreografias de luta com paus, cutelos e pedras. Scorsese queria violência brutal, caótica e desordenada. O elenco recebeu também um treino especial para adquirir sotaques credíveis para a época, com misturas de inglês americano, italiano e os sons nasalados do gaélico. Porém, tudo isto fez disparar os custos para 100 milhões de dólares e Weinstein passou a fazer ainda mais pressão no director, aparecendo sem aviso em Roma para discussões violentas: entre gritos, ameaçou cortar a verba se não cortasse o argumento e lhe desse um filme mais barato e comercial: Scorsese, para quem a visão artística tinha prioridade, abdicou de parte do salário, mas a relação pioraria a cada mêsff, ao ponto de o director pensar deixar tudo e reformar-se. O elenco já contava à partida com Di Caprio: como vimos, foi essencial ao arranque do projecto e oferece-nos uma interpretação competente, mas longe do brilhantismo de outros trabalhos do actor. Ele empenha-se tanto quanto pode, mas é jovem e ainda lhe falta aqui a experiência para encarnar personagens mais rugosas do que o galã bonitinho a que deu vida em “Titanic”. Em certo sentido, a personagem parece muito a visão do actor sobre Jack se ele nunca tivesse morrido no navio, apesar de serem cronologias distintas. Jim Broadbent é uma adição fenomenal, dando à sua personagem os modos educados e simpáticos necessários a um político corrupto, hipócrita e inescrupuloso. Liam Neeson e Brendan Gleeson, ambos de origem irlandesa, estão totalmente à vontade em personagens que se parecem muito com outros trabalhos que eles já tinham feito, e aos quais foram buscar uma inspiração evidente (“Rob Roy” e “Braveheart”). Porém, quem rouba todo o oxigénio da sala é Daniel Day-Lewis, um dos mais incríveis actores do seu tempo: ele tinha deixado de actuar para se tornar sapateiro em Florença, mas voltou graças aos insistentes pedidos do director e entregou-se a 110% à personagem, vivendo-a literalmente durante os meses em que esteve a filmar: treinou o manuseio de facas de talho com um profissional, falava com o sotaque, vestia as suas roupas e fazia tudo na personagem, dia e noite, num comprometimento absoluto que pode assustar os actores habituados a “separar” a personagem da sua própria pele. No extremo oposto está Cameron Diaz, num filme que não era para ela, nunca foi. A sua adição foi uma imposição de Weinstein, num esforço para tornar o filme mais ligeiro através de uma subtrama romântica que não tem pés nem cabeça e que nunca deveria ter sido inserida. A actriz não tem culpa, mas ela nunca devia ter estado aqui em primeiro lugar. Em anos recentes, este filme parece ter caído num esquecimento injustificável. Os seus méritos são evidentes, mesmo sendo uma obra que coxeia devido às pancadas sofridas durante a brutal desavença entre o seu criador e o seu principal vendedor. A recriação do período, por exemplo, é um aspecto que demorei a valorizar: quando vi o filme a primeira vez pareceu-me um exagero enorme. Scorsese criou espaços cavernosamente góticos e infernais, batalhas campais em pleno dia com centenas de mortos e feridos, tudo ao som de uma “coisa” pop-rock totalmente intrusiva e fora de contexto que os U2 fizeram! Mas esses exageros todos são dramatizações que me cegaram e impediram de valorizar o trabalho criterioso de Ferretti e da sua equipa de cenário, guarda-roupa e adereços, que nos dá uma visão imponente da Nova Iorque do tempo da Guerra Civil, recriando com precisão jornalística os motins contra o recrutamento em 1863! Além desse momento histórico, o filme mostra-nos um quotidiano de violência diária, criminalidade, sujidade e animais soltos nas ruas, edifícios decadentes e corpos de bombeiros que preferem agredir-se a unir esforços! Tudo isso era verdade, era o dia-a-dia de uma cidade em brasa, dependente de uma massa de pessoas excluídas e indesejadas a quem os políticos prometiam o mundo aventando oportunidades, emprego, igualdade e liberdade, mas recorrendo à corrupção e violência para ter votos. Uma sociedade engajada numa guerra civil para combater o racismo e a escravatura, mas que tratava os imigrantes como escravos e promovia violências, preconceitos e racismo. Tudo isto é tão actual! O valor deste filme vai além da recriação do período, dos cenários, das actuações, da banda sonora de Howard Shore ou da visão teimosa de Scorsese: se a mentalidade americana nasceu destas guerras tribais, a verdade é que nunca as superou. Ainda existe uma inimizade entre quem é americano por nascença, quem se naturalizou e quem imigrou para o país, uma inimizade que a equipa do presidente Trump (o novo Bill “The Butcher”) tem usado a seu favor no jogo político, dividindo as pessoas e fazendo esquecer que os verdadeiros americanos nativos são descendentes dos indígenas e que todos os outros ocuparam terras a que nunca tiveram direito! Só por isso, vale a pena ressuscitar este filme, tirá-lo do fundo do baú e relançá-lo de alguma forma. Uma hipótese seria um Corte do Director: apesar da resignação de Scorsese, sabemos que ele nunca ficou satisfeito com a versão teátrica, que foi adiada mais de um ano após o 11 de Setembro; quando saiu, vinha mutilada a golpes de cutelo para satisfazer os desejos comerciais de Weinstein. Agora que todo o mundo sabe que este produtor nunca passou de um porco nojento e misógino que tratava o cinema com a subtileza de um vendedor de carros em segunda mão, por que não lançar a versão que Scorsese realmente queria, sem os cortes a que foi obrigado?
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