A Estrada da Vida
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A Estrada da Vida

A Estrada da Vida

Filmado na Itália, onde aconteceu

Tipo

Filme

Ano

1954

Duração

108 min

Status

Released

Lançamento

1954-09-23

Nota

7.9

Votos

1.156

Direção/Criação

Federico Fellini

Orçamento

-

Receita

-

Temporadas

-

Episódios

-

Sinopse

Gelsomina é vendida por sua mãe para Zampanò. Ambos não têm nada em comum: o jeito ingênuo e humilde da jovem é o oposto da rudeza de Zampanò, um artista mambembe. A chegada de um equilibrista que admira especialmente Gelsomina trará acontecimentos inesperados.

Anterior7.9Próximo

Reviews

Total: 2

Filipe Manuel Neto

**Um filme verdadeiramente magnífico, mas que não aguentarei voltar a ver.** Vi este filme agora mesmo e ainda não sei bem o que dizer. Por um lado, é angustiante: é um filme sobre violência, decadência moral e física, e sobre desespero, uma jornada em que vemos uma pessoa doce e verdadeiramente pura ficar totalmente perdida. Por outro, é uma obra-prima inspirada, habilmente dirigida por um dos grandes cineastas italianos do século XX, Federico Fellini, e ele sabe exactamente o que está a fazer. Não é um filme que eu acredite que consiga voltar a ver, sou absolutamente sincero: não é possível ficar indiferente ao que nos é apresentado, só se formos totalmente desprovidos de compaixão e piedade. No entanto, recomendaria o filme e acredito que é imperdível, principalmente para quem tenha interesse no cinema clássico europeu ou, muito mais concretamente, no movimento neo-realista italiano, onde se encaixa estilisticamente. Fellini garante-nos uma direcção profundamente eficaz e que consegue fazer muito com pouca coisa: é uma produção bastante barata, mas onde tudo se encaixa muito bem. Onde é que o dinheiro foi gasto? No material de filmagem e no salário de Anthony Quinn, que inicialmente nem queria fazer o filme e, quando aceitou, foi obrigado pelo próprio agente a fazer um contracto com um salário adiantado em vez de uma comissão sobre os lucros. É que, apesar de já ser um director respeitado, Quinn não conhecia Fellini, estava só a trabalhar com a mulher dele – Giulietta Masina, precisamente! Além destes percalços, o director também teve de vencer o cepticismo dos produtores, a quem cabe libertar verbas: mesmo sendo um filme barato, era tão pesado e denso que ninguém acreditava que podia dar lucro, e ninguém quer financiar filmes e perder dinheiro! Em última análise, venceu a tenacidade deste director, convicto do valor daquilo que tinha na mão. O filme tornou-se num êxito nos festivais de cinema, o director venceu o Leão de Prata no Festival de Veneza de 1954 e os produtores também levaram para suas casas o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, numa das primeiras ocasiões em que foi atribuído. Hoje, podemos dizer que é dos dez melhores filmes italianos de todos os tempos, e um dos mais significativos e culturalmente importantes do século. A trama é simples: em meio à absoluta miséria da Itália do pós-guerra, um andarilho que vive de terra em terra com pequenas apresentações circenses resolve comprar uma mulher à mesma velha famélica a quem já tinha levado a filha mais velha, que morreu. A jovem, Gelsomina, não sabe cozinhar, parece imprestável e é obviamente alguém com problemas (hoje seria avaliada como tendo dificuldades de aprendizagem, autista ou algo parecido). Ele não tem qualquer interesse romântico: quer alguém que faça trabalho pesado e ajude nos espectáculos, e aguente calado qualquer grosseria que saia da boca dele. E ao longo do filme nós vemos a forma desconsoladora como Gelsomina sofre às mãos deste bruto. O filme não nos poupa: com uma cinematografia que raia o documental, apresenta-nos a miséria dos mais pobres, dos pobres de espírito que já nem sonhar se atrevem. Uma cena me tocou particularmente: ver um grupo de pessoas a banquetear-se numa mesa e a atirar pedaços de comida e pão ao chão, para os cães, e ver algumas pessoas miseráveis a correr para os tirar do chão. É doloroso pensar que há pessoas assim, mas o mundo em que nós vivemos é todo assim! Nós, aqui, no conforto das nossas casas, com supermercados com tudo ao nosso dispor, bastando pagar… e em Gaza, e noutros lugares como Gaza, pessoas forçadas a sobreviver no limite entre a humanidade e a bestialidade completa. Não pude evitar as lágrimas, e nem as consigo conter agora, escrevendo estas linhas. Em meio a este breu negro de emoções dramáticas, Fellini nunca nos deixa perder toda a esperança. Gelsomina, como qualquer um de nós, vai encontrando pessoas boas ao longo da estrada dela. Pessoas que a ajudam a manter viva a vontade de algo melhor… e também a religião funciona, neste filme, como um símbolo de esperança. Afinal, a fé acaba sendo, para muitos, a derradeira tábua de salvação a que se prendem desesperadamente para não se afundarem no desespero do mundo em que vivem. Podemos ver isso na forma como a pobre Gelsomina expressa a sua devoção e respeito pelo sagrado, numa manifestação de fé simples, sem conhecimentos teológicos, sem retóricas. Ela simplesmente acredita e põe nisso uma boa parte da sua esperança futura. Masina é, de facto, a grande estrela do filme, e dá-nos o trabalho definidor da sua carreira como actriz. A expressividade é brilhante, e Fellini trabalhou amorosamente a sua mulher. Quinn não fica atrás, é digno do nosso desprezo, o retrato de um homem bruto e néscio, a quem a vida só ofereceu pancada, e que só aprendeu isso. Ele é o produto de um ciclo de brutalidade. Richard Baseheart, outro americano, faz um papel excelente como Louco: é um homem parvo, mas bom, que arrisca por não ter muito o que perder, mas que tem a centelha da bondade e gentileza de uma criança que nunca cresceu. Infelizmente, os dois americanos foram dobrados para um italiano bizarro, e essa é a única crítica séria que este filme merece.

Filipe Manuel Neto

**Um filme verdadeiramente magnífico, mas que não aguentarei voltar a ver.** Vi este filme agora mesmo e ainda não sei bem o que dizer. Por um lado, é angustiante: é um filme sobre violência, decadência moral e física, e sobre desespero, uma jornada em que vemos uma pessoa doce e verdadeiramente pura ficar totalmente perdida. Por outro, é uma obra-prima inspirada, habilmente dirigida por um dos grandes cineastas italianos do século XX, Federico Fellini, e ele sabe exactamente o que está a fazer. Não é um filme que eu acredite que consiga voltar a ver, sou absolutamente sincero: não é possível ficar indiferente ao que nos é apresentado, só se formos totalmente desprovidos de compaixão e piedade. No entanto, recomendaria o filme e acredito que é imperdível, principalmente para quem tenha interesse no cinema clássico europeu ou, muito mais concretamente, no movimento neo-realista italiano, onde se encaixa estilisticamente. Fellini garante-nos uma direcção profundamente eficaz e que consegue fazer muito com pouca coisa: é uma produção bastante barata, mas onde tudo se encaixa muito bem. Onde é que o dinheiro foi gasto? No material de filmagem e no salário de Anthony Quinn, que inicialmente nem queria fazer o filme e, quando aceitou, foi obrigado pelo próprio agente a fazer um contracto com um salário adiantado em vez de uma comissão sobre os lucros. É que, apesar de já ser um director respeitado, Quinn não conhecia Fellini, estava só a trabalhar com a mulher dele – Giulietta Masina, precisamente! Além destes percalços, o director também teve de vencer o cepticismo dos produtores, a quem cabe libertar verbas: mesmo sendo um filme barato, era tão pesado e denso que ninguém acreditava que podia dar lucro, e ninguém quer financiar filmes e perder dinheiro! Em última análise, venceu a tenacidade deste director, convicto do valor daquilo que tinha na mão. O filme tornou-se num êxito nos festivais de cinema, o director venceu o Leão de Prata no Festival de Veneza de 1954 e os produtores também levaram para suas casas o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, numa das primeiras ocasiões em que foi atribuído. Hoje, podemos dizer que é dos dez melhores filmes italianos de todos os tempos, e um dos mais significativos e culturalmente importantes do século. A trama é simples: em meio à absoluta miséria da Itália do pós-guerra, um andarilho que vive de terra em terra com pequenas apresentações circenses resolve comprar uma mulher à mesma velha famélica a quem já tinha levado a filha mais velha, que morreu. A jovem, Gelsomina, não sabe cozinhar, parece imprestável e é obviamente alguém com problemas (hoje seria avaliada como tendo dificuldades de aprendizagem, autista ou algo parecido). Ele não tem qualquer interesse romântico: quer alguém que faça trabalho pesado e ajude nos espectáculos, e aguente calado qualquer grosseria que saia da boca dele. E ao longo do filme nós vemos a forma desconsoladora como Gelsomina sofre às mãos deste bruto. O filme não nos poupa: com uma cinematografia que raia o documental, apresenta-nos a miséria dos mais pobres, dos pobres de espírito que já nem sonhar se atrevem. Uma cena me tocou particularmente: ver um grupo de pessoas a banquetear-se numa mesa e a atirar pedaços de comida e pão ao chão, para os cães, e ver algumas pessoas miseráveis a correr para os tirar do chão. É doloroso pensar que há pessoas assim, mas o mundo em que nós vivemos é todo assim! Nós, aqui, no conforto das nossas casas, com supermercados com tudo ao nosso dispor, bastando pagar… e em Gaza, e noutros lugares como Gaza, pessoas forçadas a sobreviver no limite entre a humanidade e a bestialidade completa. Não pude evitar as lágrimas, e nem as consigo conter agora, escrevendo estas linhas. Em meio a este breu negro de emoções dramáticas, Fellini nunca nos deixa perder toda a esperança. Gelsomina, como qualquer um de nós, vai encontrando pessoas boas ao longo da estrada dela. Pessoas que a ajudam a manter viva a vontade de algo melhor… e também a religião funciona, neste filme, como um símbolo de esperança. Afinal, a fé acaba sendo, para muitos, a derradeira tábua de salvação a que se prendem desesperadamente para não se afundarem no desespero do mundo em que vivem. Podemos ver isso na forma como a pobre Gelsomina expressa a sua devoção e respeito pelo sagrado, numa manifestação de fé simples, sem conhecimentos teológicos, sem retóricas. Ela simplesmente acredita e põe nisso uma boa parte da sua esperança futura. Masina é, de facto, a grande estrela do filme, e dá-nos o trabalho definidor da sua carreira como actriz. A expressividade é brilhante, e Fellini trabalhou amorosamente a sua mulher. Quinn não fica atrás, é digno do nosso desprezo, o retrato de um homem bruto e néscio, a quem a vida só ofereceu pancada, e que só aprendeu isso. Ele é o produto de um ciclo de brutalidade. Richard Baseheart, outro americano, faz um papel excelente como Louco: é um homem parvo, mas bom, que arrisca por não ter muito o que perder, mas que tem a centelha da bondade e gentileza de uma criança que nunca cresceu. Infelizmente, os dois americanos foram dobrados para um italiano bizarro, e essa é a única crítica séria que este filme merece.

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