Psicose
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Psicose

Psicose

Uma experiência cinematográfica nova e completamente diferente!

Tipo

Filme

Ano

1960

Duração

109 min

Status

Released

Lançamento

1960-06-22

Nota

8.4

Votos

10.892

Direção/Criação

Alfred Hitchcock

Orçamento

US$ 1.999

Receita

US$ 2.007

Temporadas

-

Episódios

-

Sinopse

Marion Crane é uma secretária que rouba 40 mil dólares da imobiliária onde trabalha para se casar e começar uma nova vida. Durante a fuga à carro, ela enfrenta uma forte tempestade, erra o caminho e chega em um velho hotel. O estabelecimento é administrado por um sujeito atencioso chamado Norman Bates, que nutre um forte respeito e temor por sua mãe. Marion decide passar a noite no local, sem saber o perigo que a cerca.

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Reviews

Total: 2

Filipe Manuel Neto

**Óscares para quê?** Este filme gira em torno de um pequeno motel gerido por Norman Bates, um homem aparentemente normal que vive sob a autoridade incontestável da sua mãe. Dirigido por Alfred Hitchcock, este filme, considerado por muitos a sua _magnum opus_, tem um roteiro de Joseph Stefano e um elenco liderado por Anthony Perkins e Vera Miles. Eu não considero este filme um filme de terror, embora seja considerado como tal pela maioria das pessoas. Não me assusta mas deixa-me desconfortável, preso ao ecrã. E acho que é isso que Hitchcock queria. Ele era o mestre do suspense e sabia como segurar o público, causando tremores de desconforto sem deixar o público aos gritos. O enredo é brilhante mas o começo não o revela, sendo intencionalmente pouco atraente num esforço para deixar o público completamente à vontade até Norman entrar. Norman Bates é um dos personagens mais psicologicamente complexos que já vi, e foi desenvolvido ao extremo pelo director e pelo artista que lhe deu vida. Parece um tipo simpático, que até namorisca com a mulher atraente que ele acabou de conhecer. A cena do banho é talvez uma das mais famosas do filme (eu li nalgum lugar que usaram chocolate líquido para obter a cor que Hitchcock pretendia para o sangue) e a banda sonora incidental usada tornou-se um ícone em si mesma. Mas o final é ainda melhor, com um clímax absolutamente assombroso que faz com que todo o público sinta que valeu a pena ver o filme, mesmo se já conhece toda a história. A fotografia, a preto e branco, ajuda decisivamente a aumentar a tensão e tenho a certeza de que essa foi uma escolha consciente e deliberada de Hitchcock para o conseguir, mostrando novamente a grande qualidade e talento deste director. Nomeado para quatro prémios da Academia (Melhor Direcção de Arte em Filmes a Preto e Branco, Melhor Cinematografia a Preto e Branco, Melhor Direcção e Melhor Actriz Secundária), o filme não ganhou nenhum, o que nos mostra que, às vezes, a Academia também erra. Mas "Psico" não precisa de um Óscar para ser um sucesso. A maior prova da sua qualidade é ter permanecido, por mais de cinquenta anos, um marco do cinema, um filme de culto para os amantes de Hitchcock ou de suspense, com largas legiões de apreciadores. Filmes como este nunca morrem, são arte na sua forma mais pura. Óscares? Para quê?

Filipe Manuel Neto

**A OBRA MAGNA DE HITCHCOCK PROVA QUE É POSSÍVEL FAZER UM BRILHARETE SEM UMA FORTUNA.** _CRÍTICA FEITA APÓS REVER O FILME._ O livro “Psycho”, publicado por Robert Bloch de 1959, é um romance de terror inspirado pelos crimes de Ed Gain, o «Carniceiro de Plainview», que matou duas mulheres e roubou cadáveres do cemitério local para se vestir com as suas peles e fazer objectos com os ossos. O livro foi lançado antes da conclusão do julgamento, onde foi dado como inimputável e internado num sanatório. Tornou-se um sucesso rápido e é, actualmente, considerado um dos livros de terror mais importantes do século XX. Alfred Hitchcock interessou-se pelo livro quando a sua assistente, Peggy Robertson, lhe passou uma crítica positiva do “New York Times”. Sem hesitar, comprou os direitos do livro, anonimamente, por 9.500 dólares, uma pechincha. Nesta altura, Hitchcock estava no ápice da sua carreira e era muito respeitado. Tinha acabado de fazer “North By Northwest”, mas mantinha uma relação tensa com a Paramount Pictures e procurava material após dois projectos cancelados. “Psycho” era ideal por trocar as voltas ao público, matando a heroína no início. Porém, o filme ia abordar temas demasiado pesados, até mesmo segundo o Código Hays, código de «autocensura» seguido na indústria e que proibia estritamente temas como o incesto e o matricídio. Como a Paramount não queria expor-se a escândalos e indecências, e muito menos prejuízos (um filme não-aprovado não seria exibido pela maioria dos cinemas), os executivos recusaram a verba. Hitchcock, numa das jogadas mais arriscadas da carreira, propôs o seguinte: ele faria o filme com os seus próprios meios e dinheiro, ficaria com direito a 60% dos lucros e garantiria à Paramount os direitos de distribuição, conforme estava obrigado por contracto. Para o argumento, chamou Joseph Stefano. Ele era inexperiente, mas era particularmente sensível ao tema do trauma (ele fazia terapia por problemas com a sua mãe) e estabeleceu boa colaboração com Hitchcock: ele trouxe à tona a psicologia densa do livro, enquanto o director desmantelou a trama, cortando o que não queria ou não podia usar e expandindo o que convinha à narrativa desejada. Hitchcock queria densidade psicológica, mas também queria enganar e surpreender o público: metade do filme centra-se numa personagem, Marion, quando na verdade ela não é o tema do filme. O filme mostra as motivações, dilemas, decisões, bondade inata e elevada pressão e desgaste emocional de Marion, o público acredita que ela merece redenção… e ela morre! O McGuffin perfeito! Tudo foi pensado para preparar a mente e o coração do público para a cena do chuveiro. Só depois é que Norman ganha peso na trama. Ele é apresentado como um homem tímido, simpático, bom ouvinte e bem-intencionado, que vive sob a tirania de uma mãe que o filme trata como uma personagem activa e importante. Eu não vou dizer mais, já disse o que podia sem dar spoilers. O que posso acrescentar é que o resto do filme faz uma construção hábil da tensão dramática e suspense, com discussões acesas atrás de portas fechadas e cenas onde não vemos o rosto das personagens, levando-nos a um final surpreendente. Vale a pena, MESMO, ver o filme sem ler muito sobre ele. Para filmar, Hitchcock convocou a Shamley Productions, a sua empresa de produção, com a qual fazia curtas de TV para a série “Alfred Hitchcock Presents”. A escolha deve-se a um corte nos custos e tempo de rodagem: afinal, ele tinha apenas 800 mil dólares de orçamento (um ano antes, a Disney gastara 6 milhões em “Sleeping Beauty”!), valor conseguido com o sacrifício das suas economias e a hipoteca da sua casa. A equipa utilizou os Revue Studios, que já usava para a série de TV. Este espaço situava-se na parte traseira dos estúdios da Universal, no local onde em 1925 se filmou “O Fantasma da Ópera”. Os cenários foram concebidos por Robert Clatworthy, Joseph Hurley e George Milo usando materiais reutilizados de outras produções. Eles criaram um motel pragmaticamente simples e funcional, sem «personalidade», visualmente dominado por uma mansão de arquitectura vitoriana neogótica, erguida numa colina, simbolizando o domínio da mãe sobre o filho. O motel e casa originais ainda existem e podem ser vistos pelos turistas. Os interiores da casa foram criados em estúdio, permitindo a Hitchcock ângulos de câmara que o edifício real nunca admitiria. As filmagens decorreram em pouco mais de um mês: a equipa de TV sabia trabalhar depressa e eficazmente. Obedecendo às instruções de Hitchcock, o cinegrafista, John L. Russel, usou câmaras Mitchell BNC (usaram a Arriflex 35, mais leve, em planos inclinados e ângulos), lentes 50 mm e filme 1.85:1 Widescreen Standard de 35 mm a preto-e-branco. Eram materiais padrão da indústria, fáceis e baratos, que permitiriam a exibição do filme em qualquer cinema. A lente escolhida aproximava-se da perspectiva do olho humano, aumentando a imersividade e fazendo o público sentir-se parte dele não um espectador. O negativo a preto-e-branco, mais barato, servia melhor a tónica do filme além de tornar as cenas sangrentas menos violentas, disfarçando opções baratas de efeitos como o sangue falso, feito de calda de cacau. Muitas das cenas têm uma profundidade acima do normal graças à maior abertura do diafragma, mantendo focados os objectos em primeiro plano e também o fundo. Isto aumenta a sensação de paranóia, de que há algo escondido ou alguém a ver. A câmara posiciona-se de forma a tornar Norman maior e mais ameaçador, e Marion mais frágil. Vale a pena observar a suavidade com que se desloca, o recurso aos espelhos e a mestria do plano zenital na morte de Arbogast, com a câmara suspensa do tecto do estúdio. O filme abusa dos grandes planos para mostrar as reacções das personagens e aumentar a ansiedade do público. A cena do chuveiro, porém, é uma aula de cinema em dois minutos: durante sete dias, filmaram a cena em mais de 78 posições de câmara diferentes, às vezes com a actriz, outras vezes com um duplo de corpo, e utilizando uma cabeça de chuveiro anormalmente grande que permitiu filmar sem que a água molhasse o material de filmagem. Assim, o director obriga-nos a ver cada detalhe e a sofrer com ela, com um puro sadismo artístico. Também filmaram cenas de rua em Phoenix e perto de Fresno, Califórnia. O trabalho de edição e montagem é excelente graças á cooperação do director com o editor, George Tomasini. Ele usou cortes longos, fundidos suaves e ritmo lento na primeira metade do filme para evidenciar o desgaste da personagem. Quando ela morre, adopta uma edição mais neutra e analítica, adequada à atitude suspeita de Norman e à busca de pistas. Além disso, a edição é utilizada de forma impecável para esconder o que o público não deve ver: a identidade do assassino, a nudez e a violência. A cena do chuveiro é o exemplo acabado disso, sendo montada freneticamente (78 cortes em 45 segundos) para enfatizar a brutalidade e “enganar” o público: a combinação da edição, música e som (de melancia a ser esfaqueada) convencem o espectador de que viu um crime. A verdade é que a arma surge agressivamente, mas nunca a vemos ferir, somos convidados a imaginar! No final, a câmara foca o ralo e dissolve para o olho da personagem em close-up extremo: a cena foi dificílima devido ao reflexo da actriz para piscar os olhos e ao movimento da câmara, que tinha de se mover e ter o foco ajustado manualmente ao mesmo tempo, mas é muito simbólica do fim da vida e um dos elementos simbólicos do filme: os animais empalhados dão pistas sobre o final, os espelhos reflectem a dualidade das personagens, as sombras evocam grades e lembram a prisão (física e psicológica), e a água é um elemento purificador, que lava os pecados e esconde o mal. Até as cores dos sutiãs de Marion (branco no início, preto no fim) não são casuais e lembram a mácula moral da personagem! A banda-sonora de Bernard Herrmann, colaborador regular do director, dá o toque final ao filme com um conjunto de melodias tensas e profundamente dramáticas, com ritmo veloz que iguala o coração de alguém em fuga ou os golpes ferozes da faca de um assassino. É, sem dúvida, a melhor composição da sua obra. A reputação de Hitchcock permitiu contractar actores talentosos apesar da pobreza franciscana do projecto: Anthony Perkins dá-nos um Norman tão insuspeito como o genro dos sonhos de uma sogra exigente. O oposto da personagem literária, que é detestável! O actor supera-se a cada cena, entregando uma interpretação digna de estudo académico e amplamente considerada como a sua melhor performance em cinema. Martin Balsam, Vera Miles e John Gavin cumprem com dignidade papéis de suporte. Janet Leigh é fenomenal no papel de Marion, enfatizando a insatisfação interior da personagem, os dilemas morais que suporta e, mais tarde, a gigantesca pressão psicológica que sofre ao sentir-se perseguida. Os diálogos, como habitual nos filmes deste director, estão repletos de subtilezas, trocadilhos de humor negro e pequenas pistas para auxiliar o público, se for capaz, a deslindar o mistério por si mesmo. É o caso daquele momento em que Norman Bates fala nas armadilhas em que estão presos, ou quando, referindo-se à sua mãe, diz que ela «não é mais ela mesma». Antes de o filme estrear, Hitchcock mandou comprar todos os volumes do livro para manter o final em segredo, mas quase nem era preciso: o livro, mais brutal e sanguinolento, diferencia-se bastante do filme. O Código Hays obrigou a que se sugerisse mais do que se mostrava, e Hitchcock, mestre nisso, “negociou” as cenas que queria manter, como a do casal na cama ou a da sanita, uma proeza por ser a primeira aparição de uma sanita funcional. O filme foi um sucesso explosivo, para o que ajudou o marketing inteligente, como a decisão de se fechar a sala de cinema após o começo do filme. Algumas pessoas ficaram com medo aos banhos de chuveiro depois! Não obstante, alguns críticos acharam o final demasiado explicativo; eu aceitei-o bem, na verdade, sinto que dá um fim sereno e lógico a um carrossel de emoções e tensão. Este é um dos raríssimos filmes que é quase perfeito! O director rompe barreiras, destrói a sacrossanta segurança do herói, mostra-nos que o perigo é insuspeito e familiar, num filme onde cada cena, cada take, é pensado e tem um propósito para existir. Se me pedissem para apontar um defeito, eu apenas seria capaz de referir a unidimensionalidade das personagens Sam e Lila, que servem apenas para resolver o mistério e levar o público nessa descoberta. Falta-lhes a mesma “carne psicológica” das outras personagens que vimos.

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