
Tipo
Filme
Ano
2022
Duração
114 min
Status
Released
Lançamento
2022-10-20
Nota
7.5
Votos
3.297
Direção/Criação
Martin McDonagh
Orçamento
US$ 20.000.000
Receita
US$ 49.300.000
Temporadas
-
Episódios
-
Sinopse
Embora Pádraic e Colm tenham sido amigos de longa data, eles se encontram num impasse quando um deles abruptamente rompe o relacionamento, trazendo consequências graves para ambos.
Elenco principal
Reviews
Total: 1
Filipe Manuel Neto
**Um filme poderoso e tenso, mas que nem sempre vai agradar posto que se abre a várias interpretações e nos obriga a pensar.** Quando vai ao cinema, o público generalista não procura filmes que o façam pensar muito e interrogar-se. A maioria só quer comer pipocas e passar algum tempo de qualidade, só ou acompanhado de outras pessoas. Assim, filmes como este acabam por ser traídos pela sua própria complexidade e hermetismo. Este é um bom filme, e isso é indiscutível, mas é um filme que nos obriga a pensar, e que nos apresenta um drama tenso (eu nunca seria capaz de o considerar uma comédia, nem entendo essa classificação!) em torno do fim de uma amizade de longa data entre dois homens. Martin McDonagh, que assegura a escrita do argumento e a direcção, volta, assim, a dar-nos um trabalho denso onde cada subtrama funciona como uma camada de cebola. Ele já o tinha feito, de forma menos clara, em “Three Billboards Outside Ebbing”, mas elevou a fasquia neste filme, aberto a diversas interpretações e analisável por mais de um ponto de vista. O director/argumentista criou uma sensação latente de tensão que combina com o período em que a acção decorre, a Guerra Civil Irlandesa (1922-23) que opôs as forças situacionistas do Estado Livre Irlandês (factualmente independente do Reino Unido, mas politicamente unido aos britânicos) aos radicais republicanos que exigiam uma separação total e uma Irlanda republicana. Por isso, não pude deixar de ver na separação brusca dos dois amigos uma alegoria elegante aos sentimentos colectivos da época: tal como eles, o conflito separou os irlandeses de forma irreversível gerando dois territórios (a República da Irlanda e o Ulster, ligado ao Reino Unido) que, apesar do passado comum e das óbvias ligações culturais, têm características e religiões distintas. McDonagh ainda vai tecendo diversas reflexões acerca da depressão clínica, do medo do esquecimento e do modo como avaliamos a vida a partir de dado momento. O isolamento da comunidade, e a segregação de pessoas diferentes dentro dessa comunidade, também são temas abordados por aqui. A nível estético, o filme é um colírio para o olhar graças a uma fotografia bem trabalhada, onde a cor e a nebulosidade conseguem um protagonismo muito notável, e graças à boa e criteriosa selecção dos locais de filmagem, excelentes para a reprodução de um recanto esquecido da Irlanda rural. Não temos “banshees” (entidade sobrenatural do folclore que, para os irlandeses, é uma espécie de fada maléfica), mas eu não teria dúvidas em viver ali se eu mesmo fosse uma delas. A escolha do título do filme, aparentemente estranha, liga-se à melodia folk que uma das personagens principais está a tentar compor. Além de tudo isto, o filme oferece-nos uma excelente direcção de arte, com cenários muito detalhados (eu destacaria a taberna e a casa de Colm Doherty), e uma banda sonora atmosférica. O elenco é razoavelmente reduzido e concentra-se num pequeno grupo de personagens, o que permitiu um desenvolvimento maravilhoso da personalidade das mais importantes. Até o padre da aldeia tem direito a não ser reduzido ao papelão a que muitas personagens secundárias são reduzidas noutros filmes! A escolha dos actores também ajudou: não os conheço a todos, mas duvido que tenhamos aqui muitos novatos! O director quis pessoas competentes para cada personagem e houve, claramente, um grande cuidado no casting. De todos, destaco especialmente as três personagens centrais e, muito especialmente, os actores que deram vida aos dois amigos: Colin Farrell e Brendan Gleeson. Este último é um veterano dos palcos irlandeses com um trajecto que fala por si, mas que parece ter um toque de mestre para personagens mais indigestas e rabugentas. Recorde-se o seu trabalho em “The Guard” e na franquia “Harry Potter”! Aqui, Gleeson não nos decepciona e dá-nos uma personagem rabugenta, angustiada e insatisfeita, mas que não conseguimos odiar porque parece falar-nos algo sobre as nossas próprias inquietações. Quanto a Farrell, que é outro actor com um talento inquestionável, eu não me lembro de o ver num trabalho tão poderoso e desafiador! Ele superou-se neste filme! Por vezes, ele pode parecer caricatural, mas eu penso que a personagem dele lhe pedia esse exagero ocasional, então eu fico feliz que o actor tenha tido a capacidade de corresponder. Temos ainda de estar atentos a Kerry Condon, que deu vida a Siobhán, a irmã de um dos dois amigos. Ela é, em certo sentido, a voz da razão em meio à contenda que os divide. Ela diz-lhes o que muitos de nós teríamos dito se fosse possível. Ela, em certo sentido, funciona como o coro das tragédias gregas, e isso foi extremamente eficaz aqui.
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