Oslo, 31 de Agosto
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Oslo, 31 de Agosto

Oslo, 31 de Agosto

Viva hoje. Um minuto de cada vez.

Tipo

Filme

Ano

2011

Duração

95 min

Status

Released

Lançamento

2011-08-31

Nota

7.5

Votos

529

Direção/Criação

Joachim Trier

Orçamento

-

Receita

US$ 1.481.665

Temporadas

-

Episódios

-

Sinopse

Ambientado ao longo de um único dia, Oslo, 31 de Agosto acompanha Anders, um toxicodependente em recuperação. Ele recebe um dia de licença do centro de reabilitação para se candidatar a um emprego e tentar se reaproximar de seus velhos amigos e familiares pela cidade de Oslo, onde nasceu.

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Reviews

Total: 1

Thiago Thomas

# Oslo, August 31st: ainda conseguir desejar momentos **⚠️ SPOILERS DE *OSLO, AUGUST 31ST*** *Oslo, August 31st* é sobre alguém que ainda consegue desejar momentos, mas já não consegue desejar uma vida. Anders passa um único dia fora da clínica de reabilitação e volta para Oslo, cidade onde construiu quase toda a sua história até ali. Revê amigos, tenta um emprego, procura contato com o passado, atravessa lugares conhecidos e vai a uma festa. Tudo isso enquanto tenta responder uma pergunta que talvez nem consiga formular direito: existe alguma versão da minha vida que ainda vale a pena continuar? A fotografia ajuda muito a construir essa sensação. A câmera mantém Anders bem definido enquanto o mundo continua acontecendo ao redor dele, e as cores frias reforçam esse deslocamento sem tornar o filme artificialmente sombrio. Oslo é filmada de um jeito muito natural, quase cotidiano, e talvez seja isso que torne tudo ainda mais triste. **O mundo continua funcionando. Anders é quem já não encontra seu lugar dentro dele.** ## Oslo e pertencimento A própria abertura já entrega um pouco disso. Antes de acompanharmos Anders, ouvimos pessoas falando sobre a cidade, lembranças e experiências. Oslo é apresentada através da memória e carrega praticamente toda a vida anterior dele: amizades, relacionamentos, festas, drogas, fracassos. Por isso existe algo contraditório na ideia de que Anders precisa "começar do zero". > **Como começar do zero no lugar onde praticamente tudo já está escrito?** Ele conhece a cidade. Existe familiaridade, mas familiaridade não é a mesma coisa que pertencimento. Pertencer, para mim, seria conseguir imaginar uma versão atual de si mesmo continuando naquele espaço, e Anders parece já não conseguir fazer isso. Ele não consegue mais ser completamente quem era, mas também não consegue imaginar quem poderia se tornar. ## Atraso, comparação e rejeição Isso aparece com força na conversa com Thomas. Num primeiro momento, Thomas representa aquilo que Anders acha que já deveria ter construído aos 34 anos: casamento, filhos, casa, estabilidade. Mas a conversa vai desmontando essa imagem. Thomas também está frustrado e também sente falta de coisas. Isso não significa necessariamente que sua vida seja ruim, mas, para Anders, produz duas percepções ao mesmo tempo: **"estou atrasado"** e **"mesmo se eu chegar lá, talvez isso não resolva nada."** Essa sensação de atraso atravessa o filme inteiro. Quando você sabe para onde está indo, alguém estar na frente talvez importe menos. > **Quando você nem consegue enxergar a estrada, qualquer pessoa andando parece estar melhor que você.** A entrevista de emprego concentra muito desse sentimento. Existe ali uma possibilidade concreta de recomeço, mas Anders começa a falar sobre o próprio passado e praticamente se exclui da vaga antes que o entrevistador possa fazer isso. Existe vergonha e antecipação da rejeição. É como se pensasse: "quando você souber quem eu realmente fui, vai perceber que eu não deveria estar aqui". Então ele se rejeita antes que alguém possa rejeitá-lo. Por isso tenho dificuldade em dizer que Anders simplesmente passou aquele dia decidido a morrer. A abertura coloca essa possibilidade diante do espectador, mas, ao longo do dia, ele parece testar repetidamente se ainda existe alguma coisa capaz de mudar a narrativa que construiu sobre a própria vida: Thomas, a entrevista, a ex, os amigos, a festa, os desconhecidos e a própria cidade. Pode existir uma dimensão de despedida em tudo isso, mas também existe oscilação. O problema é que nenhuma evidência encontrada parece suficiente, e talvez nenhuma pudesse ser. ## Continuidade A cena do café resume muito bem esse sentimento. Anders senta sozinho e escuta fragmentos das conversas ao redor: dinheiro, relacionamentos, filhos, música, desejos, frustrações e planos. Nada ali representa uma vida perfeita. Mas todas aquelas pessoas parecem possuir algo que Anders perdeu: **continuidade**. Elas ainda conseguem transformar desejo em futuro. Mesmo suas frustrações pressupõem alguma continuidade, porque você só se frustra quando existe uma diferença entre a vida que possui e aquela que ainda consegue imaginar. Anders parece ter perdido essa ponte. Ele ainda deseja coisas. Quer conexão, trabalho, amor, pertencimento. Mas não consegue organizar esses desejos numa imagem de futuro que pareça real e suficiente. Até a conversa sobre música clássica ganha outro peso quando descobrimos depois que ele toca piano. Não é um universo estranho. São fragmentos de uma vida da qual ele também poderia fazer parte. Mas ele continua sentado sozinho. ## A antiga forma de pertencer Existe uma contradição especialmente cruel na festa. Quando Anders volta a beber, volta também a circular com mais facilidade. Ri, conversa, flerta e, por algumas horas, parece saber novamente como existir naquela vida. Isso torna a sobriedade ainda mais complicada. A antiga vida era destrutiva, mas era conhecida. Tinha lugares, pessoas, rotina e uma forma de pertencimento. A reabilitação tira essa estrutura e deixa uma pergunta muito mais difícil: **quem sou eu sem tudo isso?** Para voltar a sentir que pertence à vida que conhece, Anders precisa recorrer justamente às coisas das quais precisa se afastar para construir uma nova. Talvez esse seja o verdadeiro limbo do personagem. Ele não consegue mais ser quem era, mas também não consegue imaginar quem poderia se tornar. ## Ainda conseguir imaginar amanhã Por isso não acho que *Oslo, August 31st* esteja simplesmente perguntando por que alguém perderia a vontade de viver. Para mim, a pergunta é mais específica: **como continuar quando você ainda consegue desejar momentos, mas já não consegue transformar esses desejos numa vida que consiga imaginar para si?** Anders ainda consegue sentir prazer, rir e criar pequenas conexões. Isso torna tudo ainda mais doloroso, porque uma experiência boa não necessariamente muda a maneira como alguém enxerga a própria existência inteira. Ele ainda deseja coisas, mas parece ter perdido a capacidade de transformar esses desejos em continuidade. Talvez seja justamente isso que o separe das pessoas que observa no café. Não é possuir ou não uma vida perfeita. Ninguém ali parece possuir. A diferença é que aquelas pessoas ainda conseguem imaginar alguma forma de amanhã, mesmo que esse amanhã envolva problemas, frustrações ou incertezas. No final, talvez a maior tragédia de Anders não seja ter perdido propósito, mas continuidade. O passado existe, mas pertence a uma versão de si mesmo que ele precisa abandonar. O presente é um espaço de vergonha, comparação e tentativa de reconstrução. E o futuro permanece praticamente vazio. > **Anders ainda consegue imaginar momentos. O que já não consegue imaginar é amanhã.**

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