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Filipe Manuel Neto
**Um filme eficaz e bastante pragmático, onde Flynn mostra estar desgastado e em dificuldades.** Quem diria que o último filme de capa e espada protagonizado por Errol Flynn, um actor que se notabilizou tanto em inúmeros heróis ficcionais, seria um filme ligeiramente baseado na vida de uma personagem histórica real? Sim, porque este filme, hoje completamente esquecido, baseia-se numa situação obviamente inventada, mas imaginada em torno da figura, totalmente real, do Príncipe Negro. Eu, como historiador, vou tentar explicar um pouco desta confusão… Como creio que todos sabem (todos os que tiveram aulas de história e prestaram atenção no que foi dito), Inglaterra e França travaram uma sucessão de guerras durante parte da Idade Média, a que se convencionou chamar Guerra dos Cem Anos. O ponto fulcral foi a soberania sobre uma série de territórios na actual França e o direito dos reis ingleses ao trono francês. Em 1066, séculos antes, o duque Guilherme da Normandia, vassalo dos reis franceses, conquistou a coroa inglesa pelas armas, tornando-se rei de um país sem deixar de ser, como duque francês, vassalo do reino vizinho e senhor de muitas terras, a que se somariam ainda, pelos casamentos dos reis subsequentes, terras na Bretanha, Anjou, Loire, Aquitânia etc. Quando, em 1328, o rei francês morre sem herdeiro directo, a sua irmã reclama o trono para o filho dela, que é Eduardo III de Inglaterra, sobrinho e parente masculino mais próximo do defunto... Os nobres franceses, invocando uma lei que excluía a sucessão por linha feminina – chamada Lei Sálica – recusaram-se a aceitá-lo e entronizaram um primo do rei falecido, o Conde de Valois. A guerra que se seguiu teve grandes batalhas, maioritariamente vencidas pelos ingleses, os quais foram liderados pelo próprio Eduardo e pelo seu filho, que é o Príncipe Negro, assim chamado devido à cor com quem pintou a sua armadura. O brilhantismo militar do príncipe, de resto, veio a torná-lo numa das figuras principais da Guerra dos Cem Anos. O roteiro parte da base histórica para criar uma ficção apelativa e atraente, romântica, com as suas ideias de amor cortês, de cavalaria, de aventura. O facto é que o filme funciona, mas torna-se evidente desde o começo que estamos perante a visão moderna de como teria sido a época e o conflito. Há anacronias gritantes, especialmente no comportamento das personagens, o que foi mais estranho para mim do que qualquer questão relacionada como o sotaque dos actores (que são todos anglófonos, evidentemente). Não se compreende como é que o príncipe herdeiro inglês poderia simplesmente pensar em fazer-se passar por um mercenário a soldo de um nobre infinitamente menos importante do que ele, e ainda por cima por culpa de uma mulher. É algo inconcebível para a mentalidade medieval. Errol Flynn está muito longe dos seus dias de glória aqui. O actor parece muito cansado, muito desgastado, e é evidente que o alcoolismo contumaz o consumia diariamente. Além disso, ele simplesmente não tinha mais vitalidade e juventude para interpretar a personagem que lhe foi dada. Ele sabia disso muito bem, e parece que só aceitou o papel pelo dinheiro envolvido. Peter Finch é agradável, mas tem pouco para fazer realmente, e Joanne Dru foi eficaz como interesse romântico, mas não está ali para outra coisa além de ser salva. Tecnicamente, o filme tem os seus méritos, principalmente porque a produção, a fim de cortar despesas, soube dar bom aproveitamento aos cenários e figurinos de outras produções feitas pouco tempo antes, e que tinham bastante qualidade. A cinematografia também não desilude e é muito bonita, com a sua cor, luz e movimento agradável. As cenas de luta parecem muito artificiais, naturalmente são coreografadas ao milímetro, mas conseguem ter o efeito mínimo que procuram obter.
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