
Tipo
Filme
Ano
2012
Duração
158 min
Status
Released
Lançamento
2012-12-18
Nota
7.3
Votos
5.541
Direção/Criação
Tom Hooper
Orçamento
US$ 61.000.000
Receita
US$ 442.636.309
Temporadas
-
Episódios
-
Sinopse
Na França do século 19, o ex-prisioneiro Jean Valjean, perseguido ao longo de décadas pelo impiedoso policial Javert por ter violado sua liberdade condicional, busca redenção pelo seu passado e decide acolher a filha da prostituta Fantine.
Elenco principal
Reviews
Total: 2
Filipe Manuel Neto
**Profundamente comovente.** Este filme conta a história de Jean Valjean, um homem condenado a trabalhos forçados por roubar comida quando estava com fome. Libertado, foi apanhado a roubar todas as pratas de um padre que lhe permitira dormir na sua igreja. Porém, o gesto de bondade do sacerdote, que lhe permitiu ficar com tudo, levou-o a violar a liberdade condicional e deixar de se apresentar às autoridades, indo estabelecer-se noutra cidade, com outro nome, com o qual depressa se torna uma personalidade notória da vida local, e um homem honrado. Até que o comissário Javert, da Polícia, surge no seu encalço, determinado a prendê-lo. Dirigido por Tom Hooper, o filme tem um roteiro com base na história homónima de Victor Hugo. O elenco é liderado por Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway e Sacha Baron Cohen, entre outros actores. A história deste filme não precisa de introdução. É um daqueles romances que toda a gente já leu ou conhece de ouvir falar. Um dos mais famosos de Victor Hugo, já foi adaptado ao cinema, ao teatro e até deu origem a um dos mais famosos musicais de sempre. Com efeito, este filme não mais é do que a adaptação cinematográfica do musical, mantendo a maioria das canções criadas para ele. Sobre o roteiro nada há a dizer: a adaptação feita é boa e convincente. Os actores são monstros de talento, com excelentes vozes, e alguns deles já estão acostumados ao universos dos musicais britânicos e americanos. Jackman deu uma alma pura à sua personagem, contrastando com a gravidade vocal de Russell Crowe, cujo Javert é um homem obcecado com a punição dos criminosos e descrente na sua reabilitação. São personagens fortes, interpretados por actores experientes com uma presença enorme em cena. As cenas de acção entre eles são de tirar o fôlego. Anne Hathaway também merece uma menção especial, não só pelo esforço físico que passou para ser Fantine (ela ficou extremamente magra e quase careca para o papel) mas pela qualidade do que ela fez. Tendo uma das personagens mais dramáticas do filme, tem algumas das cenas mais trágicas e a música mais triste, "I Dreamed A Dream". É quase impossível não nos emocionarmos com essas cenas e a forma com que a actriz canta essa música e dá uma alma quase mártir à sua personagem. Os cenários são excelentes e tentam ser fiéis ao livro e à história. Os trajes também e alguns merecem aplausos, retractando bastante bem a miséria em que os mais pobres viviam. Os efeitos visuais cumprem o seu papel de uma forma discreta mas eficiente, e a banda sonora será por certo lembrada por todos os que viram o filme. Vencedor de três Óscares (Melhor Actriz Secundária, Melhor Caracterização, Melhor Edição e Mistura de Som), é um filme para toda a família.
Filipe Manuel Neto
**UM MUSICAL QUE A MAIORIA FOI VER SEM SABER QUE ERA UM MUSICAL.** CRÍTICA QUE ESCREVI QUANDO REVI O FILME. Victor Hugo publicou “Os Miseráveis” em 1862: é um romance icónico, que acompanha as mudanças político-sociais em França após a derrota de Napoleão sob a perspectiva dos mais pobres da sociedade, em particular Jean Valjean, um homem condenado injustamente e que quebrou a sua liberdade condicional. A trama foi alvo de várias adaptações para o teatro, o cinema e a Broadway, mas este filme dedica-se especificamente a adaptar o musical. A ideia surgiu em 1991, mas o produtor do musical, Cameron Mackintosh, só a alavancou em 2011, quando Eric Fellner e Tim Bevan compraram os direitos. A Universal Pictures, com quem trabalhavam, deu-lhes um orçamento de 61 milhões de dólares, chamou William Nicholson para escrever o argumento e Tom Hooper (“O Discurso do Rei”) para dirigir. O roteiro foi feito sobre dois eixos. O primeiro era a manutenção da musicalidade sem perder coerência narrativa: as cenas tiveram de ser reordenadas e novas canções foram feitas para preencher lacunas. O segundo eixo foi uma maior fidelidade ao livro, exigência do director que incentivou Nicholson a reintroduzir elementos descartados pelo musical. Certas filmagens foram feitas no Sul de França, mas a maioria ocorreu no Reino Unido, nos estúdios Pinewood e em locais como Winchester, Chatam, Bath e Greenwich. Isto permitiu à produção aproveitar incentivos fiscais e cortar custos. Os bairros pobres e a barricada são cenários em estúdio, mas a cena inicial foi filmada numa doca-seca da época, na Base Naval de Portsmouth, com figurantes e actores a puxar um navio autêntico. Apostando num realismo visceral e boa recriação do período, fizeram mais de 4500 peças de vestuário com tecidos naturais (seda, lã, linho), desbotados e desgastados para parecerem autênticos, e as armas eram replicas de peças de museu da época. O filme reproduz bem a falta de salubridade e miséria dos subúrbios de Paris, a brutalidade do sistema penal e as barricadas da Rebelião de 1832. O que falha é o excesso de dramatismo: o filme é tão épico que faz esquecer que esta rebelião nunca teve os apoios necessários e foi facilmente debelada pela Guarda Nacional. Usando película 35 mm em vez de câmaras digitais, a cinematografia aproveita melhor a luz amarelada, simulando as velas, e a luz fria e filtros cinzas, recriando a luminosidade baça de uma cidade pobre e industrializada. Para cenas dinâmicas nas barricadas, usaram câmaras de mão e steadicams, levando o público para o meio da acção; nas canções a solo recorreram a close-ups com lentes de grande ângulo que aumentam o intimismo, realismo e dramatismo da cena. Sendo um musical, as canções são parte essencial: a maioria foi tirada da peça da Broadway feita por Claude-Michel Schönberg, e funcionam lá como cá. Contrariando o hábito de acrescentar as canções na pós-produção, o director quis que o elenco cantasse na filmagem recorrendo a auriculares discretos onde a melodia era tocada. Isto permitiu aos actores modelarem o canto e a actuação de uma forma natural e emotiva. Arrisco dizer que a versão de Anne Hathaway de “I Dreamed a Dream” é das melhores versões da canção. Isso leva-me a falar do elenco e das suas capacidades de canto. Algumas escolhas não surpreendem: Hugh Jackman, por exemplo, é uma presença assídua na Broadway e dono de uma notável capacidade vocal. Outras apostas seguras incluem Samantha Barks, Amanda Seyfried, Aaron Tveit e Helena Bonham Carter, todos eles com prévia formação de canto e experiência em musicais. Hugh Jackman e Anne Hathaway são os actores que mais fortemente nos comovem e impressionam graças a uma entrega extrema às suas personagens. Ambos perdem bastante peso para o filme, e ela chega até a cortar o cabelo em cena. Eles combinam muito bem a musicalidade da Broadway com a crítica social violenta que o livro original faz, e que tem eco na produção realista e na cinematografia enevoada e suja. Eddie Redmayne foi uma surpresa agradável, na medida em que canta melhor do que eu esperava. E se eu aceito bem o excesso de close-ups e o senso épico algo exagerado, também estou disposto a aceitar a performance vocal estranha de Russell Crowe, a quem falta a tessitura vocal necessária para acompanhar os colegas. Ele é bom para fazer esta personagem, mas num filme falado, sendo prejudicado pela falta de voz. O que me custou engolir foram as esquisitices de Sacha Baron Cohen: acho que foi um erro de casting resultante de uma leitura exagerada da personagem, caricatural em vez de engraçada. Um outro problema foi o marketing e a publicidade ao filme: a maioria das coisas que eu vi não deixavam claro que era um musical 100% cantado, e algum público (onde eu me incluo) só se apercebeu disso depois de comprar o bilhete do cinema!
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