Doutor Jivago
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Doutor Jivago

Doutor Jivago

Turbulentos eram os tempos e ardente era a história de amor de Zhivago, sua esposa e a apaixonada e terna Lara.

Tipo

Filme

Ano

1965

Duração

197 min

Status

Released

Lançamento

1965-12-22

Nota

7.5

Votos

1.253

Direção/Criação

David Lean

Orçamento

US$ 11.000.000

Receita

US$ 111.858.363

Temporadas

-

Episódios

-

Sinopse

A vida de um médico e poeta russo que, apesar de casado com outra pessoa, se apaixona pela esposa de um ativista político e passa por dificuldades durante a Primeira Guerra Mundial e depois na Revolução de Outubro.

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Reviews

Total: 2

Filipe Manuel Neto

**Profundamente lindo e comovente, é um dos meus filmes preferidos.** Yuri Jivago é um jovem russo de uma família abastada e acabou de se formar como médico. Tem tudo para ter uma vida feliz e ao alcance de poucos na Rússia czarista. No entanto, rebenta a Primeira Guerra Mundial e, passados três anos, dá-se a Revolução Bolchevique. Tais eventos irão mudar radicalmente a face do seu país e a sua vida, enquanto vive um caso extra-conjugal com a esposa de um revolucionário sangrento e cruel. Dirigido por David Lean, o filme tem roteiro de Robert Bolt, inspirado no romance icónico de Boris Pasternak. O elenco é liderado por Omar Sharif, Julie Christie, Alec Guinness e Tom Courtenay. Este filme, um épico da guerra, mostra-nos a dureza dos eventos que afectaram a sociedade russa nas primeiras décadas do século XX: a fome, a instabilidade social, a servidão, a participação na Primeira Guerra Mundial e, finalmente, a revolução republicana, o fim do Czarismo e a ascensão do bolchevismo, após uma dura guerra civil. É considerado por muitos um marco do cinema e dos filmes mais icónicos da longa carreira do egípcio Omar Sharif. Eu, pessoalmente, considero-o imperdível para qualquer amante do cinema épico. O roteiro faz inteira justiça ao livro de Pasternak e a interpretação dos actores é excelente, mostrando-nos de uma forma clara, quase crua, as dicotomias e contrastes de cada personagem retractada. Nós vemos a bondade inata e genuína de Jivago na forma como trata todos, e vemos o seu amor à poesia. Vemos também como é que a ingenuidade e inocência de Lara são roubadas por Komarovsky, que é a epítome do aproveitador hipócrita, que só pensa nele e mede os outros pela sua própria medida. Vemos depois como cada um é afectado pelos acontecimentos dramáticos. Jivago, em particular, tem sentimentos contraditórios em relação à Revolução que podem, creio, espelhar o que o próprio Pasternak pensava: como poeta, ele via a beleza quimérica da revolução, mas não podia concordar com o que via e com o rumo que as coisas iam tomando. O lado mais sombrio da revolução é personificado na forma mais perfeita por Strelnikov, um homem cujo "coração deve estar morto", nas palavras de uma das personagens. Sendo um filme muito focado no roteiro, nos actores e na forma como conta a história, não é de esperar um espectáculo de efeitos especiais. Contudo, a fotografia é excelente, em especial nas cenas de paisagem, que são profundamente belas tanto de Inverno quanto de Verão. As filmagens decorreram em vários lugares, e a escolha dos locais de filmagem foi criteriosa. Saúdo especialmente a escolha da Barragem de Aldeiadávila, construída no rio Douro, exactamente entre Portugal e Espanha. Os cenários e os figurinos também são deslumbrantes e detalhados, o que ajuda o público a "entrar" no filme, a deixar-se levar pela história, algo que é fundamental neste filme, de quase três horas e meia de duração. A banda sonora, composta por Maurice Jarre, é das mais lindas já feitas para o cinema, em especial o seu tema principal, chamado de "Tema de Lara". O filme ganhou cinco Óscares: Melhor Argumento Adaptado, Melhor Cinematografia a Cores, Melhor Cenário em Filmes a Cores, Melhor Guarda-Roupa em Filmes a Cores, Melhor Banda Sonora Original. Foi ainda nomeado para outras cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Actor Secundário, Melhor Director, Melhor Som e Melhor Edição. Ainda ganhou o Globo de Ouro para Melhor Filme Dramático, Melhor Actor Dramático, Melhor Argumento e Melhor Banda Sonora.

Filipe Manuel Neto

**UMA OBRA ATEMPORAL, QUE TEM TIDO DIFICULDADE A AGRADAR AOS IMPACIENTES DO SÉCULO XXI.** CRÍTICA QUE ESCREVI APÓS REVER ESTE FILME. Bóris Pasternak foi um escritor que enfrentou toda a dureza da censura soviética. Ele foi incapaz de se adaptar à rigidez estalinista, que condenava a poesia como algo burguês, e fez publicar em Itália “Doutor Jivago”, em 1957, apesar dos esforços repressivos dos soviéticos. O livro espalhou-se pela Europa e foi logo traduzido em várias línguas. Quem nunca o leu, deveria: é um romance delicioso que acompanha as personagens da etapa final do Império às purgas estalinistas. Através de cada personagem, Pasternak passou ao papel muitas cenas que realmente viu e expressou várias considerações, como a esperança que sentiu com a Revolução, o horror às crueldades cometidas na Guerra Civil Russa e decepção total perante a brutalidade de um regime que pôs o Estado acima do indivíduo e anulou qualquer liberdade de expressão ou criação artística. O livro tem muito de autobiográfico, e é fácil ver as semelhanças entre o criador e Jivago, a criação. Este livro foi um best-seller e valeu a Pasternak o Prémio Nobel da Literatura, que foi obrigado a recusar após ameaças da polícia soviética. Em 1962, o produtor italiano Carlo Ponti comprou os direitos do livro e obteve um financiamento de 6 milhões de dólares da MGM, que então apostava alto em filmes épicos de forte impacto. O estúdio indicou David Lean para director, sabendo que ele queria fazer um épico romântico e intimista; também nomeou Robert Bolt para a escrita do argumento, que nos dá uma trama dinâmica, convincente e, em geral, próxima o bastante do livro original, que é mais complexo e matizado. Entretanto, as autoridades russas tentavam travar a produção, que encontrou abrigo na Espanha de Francisco Franco, nos Estúdios CEA em Madrid, onde foi erguida uma grande cidade cenográfica que incluía uma linha de bonde funcional, contando com o Inverno para as cenas de neve. Porém, foi dos Invernos mais quentes do século XX e as cenas tiveram de ser filmadas no Canadá, na Finlândia e em estúdio usando neve falsa, como na famosa cena da casa congelada. Algumas cenas foram filmadas em Sória e na barragem de Aldeiadávila, em solo português, mas merece destaque a cena dos protestos, que contou com centenas de figurantes espanhóis: cansados da ditadura, cantaram a “Internacional” com tal força que a Polícia apareceu, agitada com a cantoria revolucionária. Porém, David Lean era perfeccionista, e ia repetindo takes até ficar satisfeito. Isto levou a produção a estender-se por dois anos e custar o dobro do previsto. Não obstante, o resultado foi altamente compensador: este é dos filmes mais bem-sucedidos de sempre e um dos últimos êxitos da MGM antes da sua atribulada venda e desagregação, consagrando David Lean como um cineasta com olho clínico para uma cinematografia arrebatadora, com paisagens que se impõem e falam sem uma palavra, com uma beleza visual que beira a pintura. Some-se a isto um detalhismo metódico, uma atenção a detalhes técnicos e cenográficos que deixaria qualquer director actual esgotado. Maurice Jarre, que já se destacara dantes, até mesmo em filmes do mesmo director, deixa-nos uma obra de antologia: merece destaque o “Tema de Lara”, uma melodia usada nos créditos iniciais e que escreveu a pensar na sua mulher. Apesar das suas qualidades, o filme tem sido ocasionalmente mal compreendido por um público cada vez mais avesso a filmes lentos e reflexivos. O filme não é só sobre um poeta fictício; é, ele mesmo, poesia sensorial e, por isso, desenvolve-se por mais de três horas. Isso não é defeito, é assim e quem não aguentar pode ver outra coisa. O problema não é o filme, é a impaciência de um público incapaz de se sentar algumas horas sem as mãos no smartphone, disposto a apreciar o que tem diante de si. É por isso que Omar Sharif actua de forma tão aparentemente lamechas! O actor, que ficou muito satisfeito por dar vida a esta personagem e atingiu, com este filme, uma merecida aclamação, procura dar-nos a visão de um homem complexo, sofrido e sonhador que não perde a sua sensibilidade e gentileza apesar das brutalidades que vivencia e observa, e que continua a ser capaz de amar, amando duas mulheres diferentes de maneiras distintas! Este não é um filme sobre a Revolução ou a Guerra Civil Russa. Os factos históricos são só o pano de fundo das personagens, afectando as suas decisões sem que estas participem neles. Não espero uma reconstituição de período impecável, espero realismo e verosimilhança, e o filme oferece-nos isso de forma razoável. Não é um filme documental, é uma ficção enviesada e crítica feita sobre um livro denso, escrito sem liberdade por um escritor que sabia que podia pagar caras as suas palavras. Não seria nunca possível adaptar um livro assim sem fazer concessões, e eu entendo isso. Também não me parece que procure romantizar a Rússia. Não é ela que é romantizada, a história é que é romântica, tocando em temas atemporais que todos entendemos.

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