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A Ferreirinha

A Ferreirinha

Tipo

Série

Ano

2004

Duração

45 min

Status

Ended

Lançamento

2004-09-24

Nota

5.5

Votos

2

Direção/Criação

Jorge Paixão da Costa

Orçamento

-

Receita

-

Temporadas

1

Episódios

13

Sinopse

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Reviews

Total: 1

Filipe Manuel Neto

**Um panegírico à Senhora do Douro, com opções de roteiro e de casting bastante questionáveis.** Apesar de ter feito grande sucesso, com esta e outras séries que criou para a televisão, confesso que não sou um apreciador da escrita de Francisco Moita Flores. Antigo polícia e detective, que foi também presidente da Câmara Municipal de Santarém, fez-se escritor e argumentista, mas seguramente continua a não ser um historiador e a ter conhecimentos limitados no que toca à História. Só assim se compreendem os erros de anacronia das personagem que cria, e a forma como ele mistura, de modo aparentemente arbitrário, personagens e trechos de romances de variados autores. Neste caso concreto, Moita Flores resolveu dar-nos uma visão, ficcionada e romantizada, da vida de Antónia Adelaide Ferreira. Ela era de uma família rica e casou-se cedo, com António Bernardo Ferreira, seu primo, um boémio que lhe fez o favor de morrer cedo, em 1844. A viuvez permitiu a Antónia pôr-se pessoalmente à frente dos negócios: o pai e o marido eram já donos de muitas propriedades vinícolas no Douro, e Antónia aumentou muito a lista das propriedades vinícolas que possuía, construindo um império que a transformou numa das mais importantes produtoras de vinhos do Douro, e na mulher mais rica do reino. Porém, nunca ignorou as dificuldades dos que trabalhavam para ela: era frequente vê-la acudir às suas misérias e até mesmo subsidiar os estudos de muitos dos seus filhos, que se formaram médicos e advogados às custas dela, quando para isso mostravam inclinação. Tal generosidade deu-lhe a fama de protectora dos pobres, e a eterna gratidão dos durienses. Por volta de 1860, Antónia casou em segundas núpcias com José da Silva Torres, um colaborador que para ela trabalhava, o que não impediu que circulassem histórias sobre outros namoricos e relacionamentos, inclusivamente com o Barão de Forrester, inglês que morreu nas águas do rio Douro, num acidente de barco em que a própria Antónia quase morreu também. Ao longo da sua vida, e sempre sem se envolver directamente em política, lutou pelos interesses do Douro, os quais lhe convinham e ao seu negócio, e não se coibiu de afrontar os poderosos e granjear inimigos. Prova disso é a forma como, em 1854, se opôs ao casamento que o Duque de Saldanha, um dos mais maquiavélicos políticos da época, quis arranjar entre o seu primogénito e a filha de Antónia Ferreira, então com 11 anos. O pretendente chegou até a tentar raptar a criança, numa incursão nocturna em que o filho primogénito de Dona Antónia, com aspirações à vida política, também terá estado envolvido. De resto, a relação dela com os filhos nunca será fácil. A série envolve também duas outras figuras da vida portuense: Camilo Castelo Branco e a sua amante, Ana Plácido. É uma daquelas decisões que Moita Flores deveria explicar melhor, porque não há razão alguma para isso, tirando o facto de Ana Plácido ser cunhada do filho de Antónia Ferreira. Ana Plácido foi obrigada a casar, ainda jovem, com um homem muito mais velho, um burguês com fortuna feita no Brasil. Camilo Castelo Branco era um escritor boémio e pobre, com fortes simpatias miguelistas. Em 1860, após algum tempo de namoro adulterino, Camilo e Ana resolvem fugir, mas são presos por adultério. Foram inocentados em tribunal, talvez graças à influência da família Ferreira. Em 1863, o marido legítimo de Ana morre, o que permitiu ao casal ir para uma propriedade que ele deixa ao único filho deles, em Famalicão. Camilo deu-lhe depois outros filhos e escreveu para sobreviver até que a cegueira o impediu e a depressão o levou ao suicídio em 1890. Todavia, o escândalo afastou-os do convívio com a sociedade burguesa, e não sei até que ponto a família Ferreira realmente manteve relações com o casal. A série não é má, e faz um bom retracto da sociedade burguesa do Porto do Romantismo. Não é, todavia, livre de imprecisões, e algumas opções de Moita Flores são questionáveis. Também não é uma série neutra, optando por glorificar e embelezar o retracto de Antónia Ferreira. Tem uma boa cinematografia e uma boa selecção de locais de filmagem, mas a escolha das melodias e banda sonora acentuam a sensação de que a série funciona como um panegírico à empresária. Moita Flores deu o papel protagonista à própria esposa, Filomena Gonçalves, que nos dá aqui o seu trabalho de televisão mais notável e bem conseguido. António Capelo, Filipe Duarte, João Reis e Sofia Silva também fazem um bom trabalho. Catarina Furtado e Nicolau Breyner são dois erros de casting, não se assemelhando em nada com as figuras históricas a que deram vida (Ana Plácido e Forrester, respectivamente), o que foi um erro brutal, considerando que conhecemos bem como eram os seus rostos e fisionomias.

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