
Tipo
Série
Ano
1998
Duração
-
Status
Ended
Lançamento
1998-09-21
Nota
8.0
Votos
1
Direção/Criação
Leonel Vieira
Orçamento
-
Receita
-
Temporadas
1
Episódios
10
Sinopse
Elenco principal
Reviews
Total: 1
Filipe Manuel Neto
**Uma série que ressuscita novamente um dos maiores esqueletos no armário do Estado Novo.** Ao contrário dos tempos da monarquia, onde as tropelias sexuais dos reis e rainhas eram oscilaram entre o pitoresco e o grotesco, os sucessivos regimes republicanos foram bem fracos de pecadilhos de alcova. Não temos coisas como aquele presidente francês que morreu num acto sexual com uma amante em pleno Palácio do Eliseu, nem temos nada parecido ao escândalo que abalou o mandato de Bill Clinton na Casa Branca. Somos um país muito moralista, católico, que dá importância às aparências e que procura manter os pecadilhos no recato da intimidade. Por isso, é compreensível o impacto do Caso Ballet Rose, e a forma como, ainda hoje, é discutido em voz baixa. É um daqueles casos onde o poder gera impunidade. Envolvia vários crimes, como a prostituição, lenocínio, abuso sexual de menores, pedofilia, abuso de poder e obstrução à justiça, e atingia diversas figuras eminentes dentro do regime de Salazar, que ficou furioso com isto tudo, demitiu (ou coagiu à demissão) os visados e quis abafar o caso: assim, à medida que a Polícia Judiciária ia investigando, apoiada pelo ministro da Justiça, João Antunes Varela (que se demitiria em protesto contra o encobrimento), a PIDE ia procurando encobrir tudo. Os detalhes do caso são muito chocantes ainda hoje, e ficam piores se considerarmos o conservadorismo de valores apregoado pelo Estado Novo: além de recorrer a prostitutas, as quais incentivavam outras mulheres a prostituírem-se, eram ainda recrutadas jovens, pré-adolescentes e adolescentes, algumas levadas pelas próprias mães, para festas onde dançavam quase sem roupas ou corriam pelos jardins com os homens, em jogos eróticos onde depois eram “iniciadas”. Presume-se que terão tomado parte destas festas ilícitas o ministro da Economia, José Correia de Oliveira (um dos eventuais sucessores políticos de Salazar, que se exilou em Paris após o 25 de Abril e se matou), o então ministro da Marinha, Quintanilha Mendonça Dias, e o ministro do Interior, Alfredo Santos Júnior. O leque de suspeitos alarga-se e engloba ainda notáveis figuras da banca, representantes da antiga aristocracia monárquica, gestores e diplomatas: o príncipe Victor Emanuel de Sabóia (herdeiro exilado da coroa italiana), Henrique de Verda-Bairros, Jorge Cardoso de Melo e Faro (administrador do Banco Nacional Ultramarino e Conde de Monte Real no regime monárquico), Bernardo Mendes de Almeida (administrador do Banco Pinto & Sotto Mayor, dono das Águas do Vidago e Conde de Caria no regime monárquico), Júlio Calheiros (administrador do Banco Borges & Irmão e Conde da Covilhã), João Filipe de Meneses Pita (4.º Marquês da Graciosa), Rogério Silva (director do Banco Espírito Santo), Alípio e João Antero (gerentes da imobiliária A Confidente), Teodoro dos Santos (dono do Casino Estoril), Manuel Anselmo (diplomata ligado à UNESCO), John Pringle (director da Companhia Mineira do Lobito) e Manuel da Silva Carvalho (director da Companhia Industrial de Portugal e Colónias). Parece que também havia membros da alta hierarquia da Igreja. Os nomes são muitos, todos eles são sonoros, todos eles são de gente que tinha poder, dinheiro, respeitabilidade e muita influência. A maioria nem foi pronunciada e os que o foram acabaram inocentados. O escândalo (que soou mais no estrangeiro que dentro do país) foi uma montanha que pariu um rato. A série de Leonel Vieira é feliz na maneira como recria ambientes e cenários da época, e na forma como mostra o esforço da polícia para investigar seriamente, e o esforço que foi feito para obstaculizar essas investigações. Os nomes verdadeiros dos suspeitos, que hoje são sobejamente conhecidos, foram trocados por outros nomes, talvez porque esta série presume que são todos inteiramente culpados e não quis melindrar os familiares e descendentes vivos, que claro está, não têm culpa nenhuma do que se passou. A série foi feliz, também, na escolha do elenco, contando com um amplo conjunto de actores muito competentes. Destaco especialmente os notáveis João Lagarto, Rui Mendes, João Perry, Canto e Castro, Ana Zanatti, Ana Padrão e Sofia Alves.
