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Filipe Manuel Neto
**Misturando personagens de dois romances distintos e ideias imaginativas da sua cabeça, Moita Flores criou um retracto de um Portugal que só existiu na sua cabeça.** Da autoria de Francisco Moita Flores, esta série é uma mistura, algo confusa, de personagens e elementos de duas histórias muito diferentes: por um lado, a acção e as personagens principais são extraídas de “As Pupilas do Senhor Reitor”, de Júlio Dinis. Este é um dos livros mais clássicos do romantismo português, com fortes apelos ao bucolismo aldeão nortenho que o escritor, de resto, conheceu muito bem. Todavia, a série vai buscar personagens e elementos a “Memórias do Cárcere”, de Camilo Castelo Branco, muito especialmente no que diz respeito ao bandoleiro Zé do Telhado, que o escritor conheceu na prisão. Filmada em São João da Pesqueira, Penedono e Foz Coa, tem bons cenários e figurinos, o que não a faz rigorosa do ponto de vista histórico. As anacronias são muitas e estão á vista, na mentalidade e nos modos das personagens. A ideia da série é pintar uma espécie de retracto global do Portugal nos meados do século XIX, nos tempos que vão do final de 1850 a 1870. É um exercício sedutor, porém redutor: Portugal nunca foi um país uniforme, e a série ignora as assimetrias e hábitos diferentes entre regiões. O que temos aqui é, em boa medida, fantasia. Longe de ser história, é um tipo de estória que, ao misturar dois romances de dois autores, não faz justiça a nenhum dos dois. Moita Flores recriou as personagens e por vezes deu-lhes ideias e maneirismos pouco naturais, que alguém daquela época teria obviamente estranhado. Júlio Dinis imaginou João Semana como o vulgar médico de aldeia, generoso, prestativo e disponível. Alguém socialmente relevante, mas que presta serviço aos outros e que era forçosamente rico de família, pois o estudo universitário, nestes tempos, era apanágio de quem o podia pagar. Moita Flores deu à sua personagem duas características que me parecem forçadas ou até anacrónicas: as crenças republicanas e a bizarra competição com o Barbeiro. De facto, em 1860 ou 1865, Portugal nem sonhava em mandar os reis embora! Longe de ser uma inevitabilidade ou um sinal de progresso, a República não era uma questão até 1890. E até mesmo em 1910, a maior parte da população simplesmente aceitou a mudança de regime que foi imposta pela força. As classes letradas, a que pertenceria João Semana, não defenderam tal mudança até, pelo menos, 1880. Portanto, João Semana nesta série é um alienígena de ideias estranhas, precoces até na cidade e ainda mais estranhas num meio rural, onde ainda se podia sentir o aroma bafiento do legitimismo absolutista defendido décadas antes, na Guerra Civil de 1832-34. O barbeiro, com quem João Semana compete, é imaginado por Moita Flores e recorre a sangrias, unguentos e conhecimentos seculares para curar doenças, sendo alvo da chacota arrogante do médico. Isto é pretensioso: ainda hoje, em pleno século XXI, há pessoas que usam dessas poções, mezinhas e curas caseiras, uma “medicina alternativa” que persiste e se perpetuou muito entre mulheres. E nunca ouvi um médico moderno a criticar estas práticas, mesmo que não as recomende. A série conta com vários bons actores: é um dos trabalhos de televisão mais recordados da longa carreira de Nicolau Breyner, mas também conta com a participação de Filipe Duarte, João Maria Pinto, Rui Mendes, João Lagarto, Casto e Castro, Ana Bustorff e Cristina Cavalinhos. São actores que dispensam apresentações, que têm longas carreiras no teatro, cinema e televisão, e que a maioria dos portugueses conhece. A série faz um bom uso dos locais de filmagem e recria bem os cenários e figurinos. Muito menos acertada, todavia, foi a escolha e a composição da música do genérico, cantada por Vitorino: além de voltar a insistir no republicanismo (muito querido ao cantor, mas estranho e inadequadamente inserido na série, pelas razões expostas), é um tipo de canção e de voz que nos remete, mentalmente, para o Sul de Portugal, sendo que a série se passa e ambienta no Norte. Teria sido preferível a melodia instrumental, sem canto nem voz.
